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Paul Weller não vem mais

20.10.2008 @ 14:29One Comment

Paul Weller, ex-The Jam e ex-Style Council, agora também é ex-Tim Festival. Os shows começam depois de amanhã, mas o festival está com um dos seus dias zicados. Depois de perder o Gossip, Weller desistiu de vir - tudo por conta de burocracia diplomática envolvendo seu pianista, que é meio-brasileiro.

O Ilustrada no Pop republicou o comunicado oficial da organização, que saiu mais cedo.

Tudo muito bizarro e enrolado, mas a gente acredita com uma pulga atrás da orelha. A parte boa é que agora dá para assistir aos Klaxons (que tocam no mesmo horário, no palco do lado) sem remorso. Valeu, Paul.

A organização jura que está tentando uma atração de porte para substituir o velho mod. É claro que não vai rolar nenhum nome internacional, em tão pouco tempo - não tem ninguém pela região que já não tenha show marcado por aqui.

Um bom substituto seria o Spiritualized, que toca na Argentina e nem vai dar trela pro Brasil. Mas o Tim perdeu o velho alinhamento com o Personal Festival de lá - tanto que, agora, quem divide as atrações com os hermanos é o Planeta Terra.

Timfa 06: inútil paisagem

31.10.2006 @ 22:58No Comments

Eu sempre quis copiar esse título em algum texto. E agora, finalmente engolindo a ressaca do Tim Festival no Rio de Janeiro, dá pra usar.

A Marina da Glória, que abrigou o festival deste ano, é aquela coisa: uma moedinha encravada em plena Baía do Guanabara. De um lado tem uma paisagem linda (que ninguém viu, já que era de noite) e um espaço de arena que foi bem aproveitado (em comparação com os cantos e colunas insuportáveis do MAM). Do outro, como eu já tinha cantado, é um lugar perdido de acesso escroto, graças ao transporte público cifrado do Rio de Janeiro, o planejamento viário surreal e os taxistas sempre espertinhos. Em outras palavras: se você não é nativo zona sul, fodeu.

No quesito palco, Patti Smith fez o melhor show de 2006. A vaca deve estar mastigando meu coração até agora. Daft Punk foi grandioso e Beastie Boys, divertido. E Devendra, bom, sei lá.

O Tim deve fixar seus pés principais no Rio em definitivo. Bom pra gente, que tem uma desculpa pra ir sentir o cheiro de peixe da cidade. Ruim para São Paulo, que ganha um buraco gigante na sua moral.

De resto, a organização devia pensar melhor essa estratégia de shows simultâneos em palcos diferentes - que funciona bem em festivais gringos, mas por aqui beira a estupidez comercial. Este ano, por exemplo, a coisa chegou ao ponto de ter que se decidir entre Patti Smith e TV On The Radio, o que não faz o menor sentido.

Estão aí, nos posts abaixo, minhas impressões show a show. Um patrocínio indireto da Globo, que financeou minhas despesas e nem sabe.

Ah, e conselho final: nunca se hospede no hotel Vermont, em Ipanema. Preço de Hotel Glória, qualidade de albergue. Anota aí. Vermont.

Timfa 06: Patti Smith e Yeah Yeah Yeahs, um grande show e o outro

31.10.2006 @ 22:53No Comments

No finalzinho do seu show, Patti Smith brandia sua guitarra e gritava “Esta é a única arma que vocês precisam”, logo antes de entrar em transe e cortar todas as cordas. É a cena que fica da apresentação mais marcante deste festival, já no topo dos melhores shows de 2006.

Vestida de terno e gravata, com sua desgrenhada cabeleira cinza sobre o rosto marcado, Patti trouxe ao Rio de Janeiro toda a força do seu posto de “poeta e mulher do punk”. Encarnou ali, entre uma cusparada e outra, a sua geração que revolucionou os anos 70 na base das botinadas.

Patti Smith @ Tim Festival 2006, foto Adelaide Ivánova

Patti Smith @ Tim Festival 2006, foto Adelaide Ivánova

Adjetivos não faltam. No palco Patti Smith é uma figura intensa, irônica, raivosa – daquele tipo que te pega pelo fígado assim que abre a boca. E é, apesar de seu buço não corresponder à estética das capas de revista, incrivelmente sexual, feminina, arrebatadora. Suas roupas remetiam à musa retratada por Ropert Mapplethorpe na capa de Horses, seu primeiro disco. Você até pode classificá-la como Deusa, mas ela provavelmente vai lhe chutar os bagos em troca.

Sabendo o que faz, na sua primeira apresentação por essas terras de baixo, Patti calcou seu repertório todo nos anos 70. Entrou no palco com “Gimme shelter”, clássico dos Rolling Stones, já dando o tom do que viria a seguir. Sempre politizada, a cantora entremeava as músicas com discursos de consciência – contra as religiões, guerras e o presidente Bush, a favor do meio-ambiente. Pautou até as eleições brasileiras, que aconteceriam no dia seguinte. O que soaria banana na voz de outras pessoas, na dela fez todo o sentido.

A seguir, uma seqüência de Horses (“Kimberly”, “Redondo beach” e “Free money”) e outras de suas pérolas setentistas, do naipe de “Pissing in a river” e “Rock’n’roll nigger”. Atrapalhando a missa punk, apenas alguns problemas técnicos – guitarras que desapareciam e o teclado que atrapalhou o início de “Because the night”.

A dobradinha de despedida com “People have the power” (a única dos anos 80) e o grande hit “Gloria” lavaram a alma dos fãs e da molecada que só estava ali pelos Yeah Yeah Yeahs. E lá foi Patti Smith para os bastidores, com uma nova coleção de rins na bagagem.

Patti Smith @ Tim Festival 2006, foto Adelaide Ivánova

Alô criançada, o Bozo chegou

As meninas (e meninos) travestidas de Karen O provavelmente não concordam, mas o show da nova-iorquina Yeah Yeah Yeahs foi uma grande desilusão. 

Incensada desde 2001 graças ao seus ótimos discos, a banda chegou ao Rio como uma grande promessa, carregando o peso de atração principal do palco principal no sábado. Mas alguma coisa ali não encaixou direito.

Karen O entrou no palco embrulhada em um quadro de Volpi. Carismática, levou os fãs pela mãos, dançando desengonçada e fazendo poses e macaquices com as roupas e com o microfone (devidamente jogado na cabeça da platéia ao final do show). Tudo o que se esperava dela – mas quem passou anos vendo a brasileira Lovefoxxx fazer a mesma coisa à frente do Cansei de Ser Sexy não se impressiona.

Yeah Yeah Yeahs @ Tim Festival 2006, foto Adelaide Ivánova

Yeah Yeah Yeahs @ Tim Festival 2006, foto Adelaide Ivánova

Yeah Yeah Yeahs @ Tim Festival 2006, foto Adelaide Ivánova

Metade do show foi baseado em Show your bones, lançado este ano, abrindo concessões para os outros dois discos da banda. Canções como “Cheated hearts”, “Art star”, “Pin” e “Gold lion” fizeram bonito, sempre bem executadas.

Mas perfeição técnica não faz um bom show. Faltou aos YYY uma pegada mais legítima, um pouco de porra-louquice, vontade de acreditar no que estão tocando. Talvez os nova-iorquinos funcionem melhor em um palco pequeno, com uma platéia bêbada, sem se preocupar muito em ser uma grande banda. Por enquanto, fica a impressão que os gritos ardidos de Karen O funcionam melhor nos discos.

(publicado originalmente @ Omelete)

Timfa 06: contatos imediatos com Daft Punk

31.10.2006 @ 22:51No Comments

Ré, mi, dó, dó, sol. A clássica seqüência que permitia comunicação entre humanos e extraterrestres em Contatos imediatos do terceiro grau, filme de Steven Spielberg, soou nas caixas de som do palco principal do Tim Festival no seu primeiro dia. Era a senha para a entrada de Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, com um atraso fenomenal de uma hora.

Era o momento do Daft Punk iniciar sua comunicação com a ralé humana que lotava a platéia. Encaixados em uma pirâmide luminosa, com seu clássico figurino cyberpunk, com jaquetas pretas e capacetes reluzentes, a dupla encarnava todos os conceitos da velha ficção científica.

A grande diferença é que aqueles que imaginavam os anos 2000 como um futuro utópico, cheio de robôs e máquinas voadoras, provavelmente não sabiam fazer dançar. Missão que estes franceses alienígenas cumprem com louvor.

Daft Punk @ Tim Festival 2006, foto divulgação

Para quem não estava no pique de se entregar à música, o duo pode se resumir ao intrincado espetáculo visual. Congelados no topo do seu mundo, concentrados nos seus controles e botões, Bangalter e Homem-Christo são cercados por uma parafernália de luzes e projeções que explodem nas córneas da audiência.

Logo abaixo, vem a música, fazendo vibrar o fêmur dos presentes. Em pouco mais de 60 minutos, o Daft Punk desfilou uma seqüência de hits. Começaram com “Robot rock” e, até evoluir para “Human after all”, passaram por coisas como “Da funk”, “Television rules the nation”, “Technologic”, “Harder, better, faster, stronger” e, claro, as manjadíssimas “One more time” e “Around the world”. Todas remixadas e desconstruídas, transformadas em uma enorme canção eletrônica. Apareceram também releituras para Busta Rhymes (“Touch it”) e Gabrielle (“Forget about the world”).

Olhando com frieza, o show pode parecer sem graça para quem gosta de uma performance realmente ao vivo. Afinal, não existe o risco de um guitarrista que erra a nota ou do baterista perder o andamento. Mas o autocontrole da dupla compensa o quesito não-orgânico, jogando na lama boa parte dos live PAs modernosos de música eletrônica que surgem a todo momento.

(publicado originalmente @ Omelete)

Timfa 06: Devendra Banhart, no topo da bicho-grilagem

31.10.2006 @ 22:50No Comments

O homem certo no momento errado. É essa a impressão que ficou após o show de Devendra Banhart no Tim Festival. O texano chegou ao país idolatrado pela crítica, com uma discografia prolífica e excelente e uma esforçada tendência a idolatrar o Brasil – fã confesso de Caetano Veloso, cita a fase tropicalista da música brasileira como uma de suas grandes influências.

Com todo essa curiosidade gerada, o músico sofreu com uma série de fatores desconjuntados. O clima no palco estava alto pela passagem de Amadou & Mariam, um casal de cegos de Mali, recém-adotados por Manu Chao, que animou a platéia com um folk pop africano que, para os mais atentos, lembrou até as músicas enraizadas pelos negros na Bahia.

Devendra enfrentou problemas técnicos no começo do show, que pareceu aumentar o nervosismo do grupo – alimentado pela presença do ídolo Caetano na platéia. Sua decisão de fortificar as suas músicas, deixando um pouco de lado o lirismo dos discos, também não colaborou.

Devendra Banhart @ Tim Festival 2006, foto divulgação

Falante, a estrela passou o show conversando em inglês e espanhol (ou spanglish, como preferiu definir), pedindo desculpas pelo seu português ruim e pelos problemas sonoros, e elogiando nosso país à exaustão (“O Brasil é um mundo à parte” e “Isto aqui é um paraíso, quando você morre, vai para o Brasil”).

O repertório revisitou os últimos cinco álbuns e EPs lançados pelo cantor em dois anos, além de “You may be blue”, da banda amiga Vetiver. A seqüência começou calma, com os músicos tentando se entender com os equipamentos, já lançando mão da seqüência “Hey mama wolf”, “Heard somebody say”, “At the hop” e “Bluebird”. No final, mais intenso, atacaram com canções como “Long haired child” e “I feel like a child”.

É inegável a raiz hippie de Devendra e seu bando – basta olhar para seus cabelos sujos, as barbas desgrenhadas e o figurino brecholento. No palco, eles encarnam com propriedade uma banda importada direto dos anos 70, recém saída de uma Kombi rosa, e é essa mis-en-scène que dá mais graça à banda. Alguns fãs mais animados, aproveitando essa tendência riponga, jogavam pétalas e flores para os músicos.

Ao final, já sem camisa, Devendra voltou para o bis e homenageu Caetano Veloso (que não subiu ao palco, como se esperava) com “Lost in paradise”, do segundo disco solo do cantor. Ponto final em uma celebração hippie-tropicalista, que poderia ter sido melhor, mas não foi de todo ruim.

(publicado originalmente @ Omelete)