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Tom Zé, Tom Zí

17.07.2007 @ 02:35One Comment

Harry Potter que nada. Em matéria de bruxaria, eu fico com Tom Zé, que teve estréia tímida nesse final de semana.

Nem falo no texto, mas o cartaz é tão bom quanto o filme.

Fabricando Tom Zé
(publicado originalmente @ Omelete)

Fato: Tom Zé é o músico mais inventivo a criar no Brasil há décadas. A partir de sua genialidade tortuosa, de quem se considera um péssimo compositor, mais suas experimentações com canções populares e a escola de música sofisticada que teve estudando com Hans-Joachim Koellreuter e Walter Smetak, constrói pepitas que se sobrepõem, disco a disco. Tropicalista por natureza, que nunca precisou do movimento para se justificar, se mantém coerente até hoje - afastado das multidões brasileiras por malvadeza do destino.

Fato: o público brasileiro tem a péssima mania de ignorar o que é produzido perto do seu próprio umbigo, numa seqüência infeliz de auto-vandalismo patriótico. A coisa só muda de figura quando o pau brasil é apadrinhado pelo povo acima da linha do Equador. A síndrome da colônia ainda vai até a medula.

Diante disso, é excepcionalmente bom ver o músico retratado em um bom documentário como é este Fabricando Tom Zé (2007), primeiro filme de Décio Matos Jr. O diretor paulistano conseguiu resgatar um bocadinho da figura de Tom, antes que algum cineasta estadunidense o fizesse. Ponto pra nós.

Fabricando Tom Zé

Produzido a duras penas, sem dinheiro e com parco patrocínio, Fabricando merece louvor por dissecar seu personagem sem excesso de distanciamento ou firulas dramáticas construídas. Pelo contrário, o longa é tão sincero quanto o músico, que não tem papas na língua e é um dos poucos medalhões da sua época que não perde seu tempo em politicagens. É um trabalho de carinho do diretor pelo seu astro, como este tem pela sua música, suas rosas e sua mulher.

A estrutura do filme é simples e eficiente. A linha narrativa é uma turnê que Tom Zé fez pela Europa em 2005. À medida que os shows avançam, a biografia do músico é rapidamente passada a limpo: da sua infância em Irará, na Bahia, à integração com os tropicalistas, as décadas de ostracismo e sua redescoberta através dos ouvidos de David Byrne, que o levou para a glória no Hemisfério Norte.

Mas a história de Tom Zé fica em segundo plano no filme, em face de seu pensamento todo particular. Adotando a câmera da equipe como sua aliada, e não como uma intrusa na rotina, o músico se abre para a gravação. Daí vem suas relações com sua banda, o amor de 35 anos pela esposa, suas teorias musicais. A seqüência mais impressionante do filme surge daí, quando Tom esculhamba a produção do Festival de Montreux e revela toda uma posição político-musical sobre o tratamento dos estrangeiros sobre as culturas subdesenvolvidas.

Nesse foco, a música do compositor passa ao largo, sem uma abordagem mais detalhista, o que pode frustrar parte da audiência. Mas com personagem tão profundo, é difícil analisar tantas facetas em hora e meia de filme. O assunto renderia um Fabricando Tom Zé II, III

Em tantas histórias, o único defeito de fabricação do longa se fia justamente no episódio Tom Zé vs. Tropicalistas, quando o músico se separou do grupo, caiu no esquecimento e foi alvo de uma suposta “conspiração” para diminuir sua importância da época. Faltou ali uma espremida maior, para tentar esclarecer a história. Caetano Veloso e Gilberto Gil fazem um mea culpa em seus depoimentos, Tom parece disfarçar um certo rancor e o acontecido continua como uma das histórias mal explicadas da MPB.

Falando turco

07.06.2007 @ 15:42No Comments

Vou te falar: rap turco é o que liga.

Atravessando a ponte - O som de Istambul
(publicado originalmente @ Omelete)

Às vezes, grandes filmes rendem bons filhotes a partir de seus bastidores. É o caso deste documentário, dirigido por Fatih Akin.

Durante a gravação da trilha sonora de seu Contra a parede, que o consagrou em 2004, Akin ficou impressionado pela comunicação musical entre o clarinetista turco Selim Sesler e o músico alemão Alexander Hacke. No ano seguinte, contrariando as expectativas da crítica, que esperava mais um filme de ficção, o diretor lançou este Atravessando a ponte, um documentário sobre a atual cena musical e cultural de Istambul, a megalópole da Turquia.

Alemão descendente de turcos, Akin é obcecado em escavar e traduzir a cultura dos seus antepassados. Aqui, ele vai fundo no que habita os ouvidos do povo local. Hacke, músico da lendária banda germânica Einstürzende Neubauten, assume o papel de personagem principal e alter-ego do diretor na documentação, desembarcando em Istambul com um mini-estúdio nas malas para gravar a música que não chega nas fronteiras pop do circuito ocidental.

Atravessando a ponte - O som de Istambul

A ponte do título faz referência à própria Turquia. Encravado no limite entre a Europa e Ásia, o país costuma ser referenciado como uma “ponte” entre o Ocidente e o Oriente, fundindo as duas culturas em uma massa singular. A música do lugar, como não poderia deixar de ser, se aproveita dessa bagunça de referências de cá e de lá – e é esse retrato que o filme traça.

Didático, Akin faz questão de iniciar a viagem com imagens facilmente mastigáveis pelos ocidentais – como o Baba Zula, grupo apadrinhado por Mad Professor, que se beneficia dos cenários naturais para criar psicodelias sobre ritmos locais, os roqueiros do Duman e da Replika, uma “versão turca” de Sonic Youth. Essa primeira fase exibe também o hip hop de Istambul, politizado, com mais referências ao Public Enemy do que ao gangsta. Acompanhar o rapper Ceza cantando em turco se prova uma experiência e tanto para os acostumados ao som que vem dos EUA.

À medida que o filme avança, o diretor apresenta as sonoridades de maior ligação com a borda oriental do país – mas sempre aos poucos, com consciência de que pode enfrentar uma audiência sem paciência para aprender mais sobre a baglama, instrumento especialidade de Orhan Gencebay, uma das grandes estrelas do país. Sem inovar muito na forma, Akim se detém mais no conteúdo: na montagem final, depois de mais de 150 horas de gravação, dá mais espaço para a música do que para grandes discursos (apesar de revelar sensacionais personagens, como o enfant terrible Erkin Koray, na ativa desde a década de 50). Pode ser um problema, já que poderia se aprofundar mais em como funciona a relação dos músicos turcos com suas influências vindo de lados diferentes do globo. Mas alcança seu objetivo ao instigar sua platéia ao Google, em busca de mais detalhes sobre o rol apresentado na tela.

A ponte está aí, mais aberta do que nunca. É só aproveitar.