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El motomix

Thursday, September 28th, 2006

Pra quem quiser ler, aí vai.

Franz Ferdinand (e o resto) no Motomix
(publicado originalmente @ Omelete)

São Paulo vai mal das pernas. E eu não estou falando de futebol. A cidade, principal centro na movimentação da cultura pop mundial no país, vai perdendo o seu status por brigas políticas disfarçadas de amor pela população. O quase papelão que foi o Motomix, na semana passada, é sintoma patente desse perigoso movimento.

A primeira cena aconteceu na porção artsy do festival, com projeções, instalações e performances ao ar livre ocupando o lindo vão do MuBE. Na quinta-feira, 14, a própria diretora do museu invadiu as picapes da apresentação do sensacional duo Addictive TV (VJs melhorados, que remixam filmes e videoclipes com suas próprias trilhas), discutindo com os gringos e forçando a interrupção de tudo, 15 minutos antes do seu encerramento. A razão, mais que sabotagem interna, era o medo da prefeitura e seu PSIU, já que o museu está instalado em uma área dita residencial (e nobre, o que sempre “melhora a atuação” dos fiscais).

A situação foi piorando nos dias seguintes do festival, passando pela proibição da segunda performance da dupla inglesa na sexta-feira e o cancelamento, em última hora, da fase musical do evento, que ocuparia o Espaço das Américas. A prefeitura encrencou com as instalações previstas de um segundo palco no estacionamento do lugar, o que só se resolveu no sábado, poucas horas antes do início marcado, na base da liminar judicial, desmembrando os shows simultâneos em dois dias diferentes.

Nos bastidores, sobram acusações dos dois lados. Os promotores de shows dizem que a prefeitura complica cada vez mais a burocracia, dificultando novos eventos, e apontam o preconceito contra atrações não populares. O governo ataca que os organizadores são espertinhos, entregando a papelada em cima da hora, tentando burlar a fiscalização. É o mesmo movimento que já ameaçou o show do Pearl Jam em 2005 (desde então o Pacaembu não sedia mais nada, além de badernas esportivas), cancelou a mega-festa do clube Vegas e tantas outras coisas menores.

No meio de campo, o público fica perdido, os promotores estrangeiros desconfiados e os patrocinadores, donos do dinheiro, ressabiados – afinal, ter sua marca atrelada a um evento que ganha o apelido de ‘motomico’ não cai bem em nenhum plano de mídia. Isso tudo atrelado à falta de um espaço central realmente perfeito para mega-shows em São Paulo, vai diminuindo o termômetro da cidade. E outras capitais, como o Rio de Janeiro, que causam menos dor de cabeça, ganham o páreo.

Pendengas à parte, a música

Ninguém pode dizer que a escalação musical do Motomix não foi inspirada. A organização de gente grande venceu até mesmo o que poderia ser o grande problema dos shows, o Espaço das Américas, dono de traumas como no show do Moby, no ano passado. O lugar continua sendo, com suas colunas, o ambiente com o maior número de pontos cegos da cidade. Mas, surpresa!, ele pode sim ter uma acústica agradável.

Com o remanejamento do lineup, a noite começou morna nas mãos da norueguesa Annie. A loira é o que Madonna seria se tivesse nascido com vinte anos de atraso, passado a adolescência ouvindo Kylie Minogue e berrasse como Nina Hagen. E ela não nega essa comparação idiota. No palco, atacou com hits do seu primeiro álbum, Anniemal, como “Chewing gum”, “Come together” e “Heartbeat”. Da franja ao não-vestido preto, sua música é puro pop eletrônico, com um verniz cult. Mas, depois dos vinte primeiros minutos, tudo parece muito igual – e não há coxa depilada à mostra que resolva.

Annie @ Motomix 2006, foto Natalie Gunji

O Art Brut veio na seqüência, com a missão de provar sua posição como um dos hypes britânicos das últimas temporadas. E como diz o ditado, vieram e venceram, levando facilmente a medalha de prata como segundo melhor show da noite.

Os ingleses entraram no palco com riffs de “Back in black”, do AC/DC, logo emendados no hit máximo “Formed a band” e em “Bang bang rock and roll”, que dá título ao primeiro álbum. A banda é um poço de ironia, principalmente na figura do líder, o verborrágico Eddie Argos.

Art Brut @ Motomix 2006, foto Natalie Gunji

A língua de Argos é incansável como sua franja, que era arrumada incessantemente. Como ele não faz questão de cantar durante as músicas (aproximando o som do Art Brut com uma espécie de rap indie guitarrento), aproveitava o intervalo entre as músicas para falar, falar, falar. Reafirmou o discurso DIY da banda (“Saia daqui e forme uma banda, crie uma revista que eu goste de ler, escreva um zine, faça um filme que eu queria assistir!”), repetiu seu já famoso diálogo anti-dor de cotovelo com Jay-Z sobre “Emily Kane” (homenagem à sua ex-namorada) e explicou canção por canção – foi o maior número de “this song is about…” dos últimos anos.

No setlist, todas “as grandes faixas do Art Brut” – “Modern art”, “Moving to LA”, “My little brother” – e algumas novas, incluindo outra sobre seu irmãozinho e sua mania com mensagens de texto via celular. No finalzinho, desencavaram a sua música-piada “Top of the pops”, sobre o falecido programa da BBC, brincando com os seus companheiros de festival (chamando o Radio 4 de “Radiohead 4”) e inserindo, ali no meio, as duas bandas brasileiras que fazem parte do cenário global. “Sepultura, top of the pops / CSS, top of the pops”, falando do Cansei de Ser Sexy. Quem entendeu, sorriu. Mais contemporâneo impossível.

Franz assume seu reinado

A conexão entre o Brasil e os integrantes do Franz Ferdinand é intensa. Não é à toa que Alex Kapranos se ajoelhou na beira do palco assim que entrou em cena, nos primeiros acordes de “This boy”.

Já se vão mais de seis meses da primeira parada da banda por aqui, com sua passagem antológica pelo Circo Voador, no Rio de Janeiro. Desta vez, no seu primeiro show “de verdade” em São Paulo, o clima era parecido. Inclusive no abafado da temperatura, rescaldando a realidade gelada do lado de fora e transformando o lugar em algo perto do fevereiro carioca.
No palco, a banda escocesa cuidou do seu serviço fácil. O tempo de estrada, com a turnê que pipocou por toda parte do planeta antes de acabar aqui e agora, fez bem ao show. A banda se segura firme como antes nas suas pancadas dançantes, mas agora com um bocado mais de naturalidade.

Franz Ferdinand @ Motomix 2006, foto Natalie Gunji

E fizeram tudo o que se espera de um grupo que bebe na autoconsagração. Seduziram a platéia, desfiaram todos os hits, juraram não tocar mais o hino “Take me out” (“só mais essa vez”), e apresentaram duas músicas novas – “Can’t stop feeling” e “L. Wells”, velhas conhecidas de quem acompanha os FF pela web. O show não foi tão bom quanto o carioca do início do ano, mas chegou bem perto.

O final, apoteótico, seguiu a já manjada dobradinha “Outsiders”-“This fire”. Na primeira, o também já manjado “Olodum indie” foi formado com Annie, seus músicos de apoio, os Radio 4, os Art Brut e um fã da platéia, estourando os seis tambores extras espalhados no palco.

Depois veio a catarse, o inferno ferdinândico em abençoado fim de turnê. Equipamentos ao chão, uma pandeirola e o teclado (!) jogados para a platéia. Kapranos, fogoso e sem camisa, exibia um legítimo bronzeado de braços, bem ao estilo “sou inglês e passei os últimos dias passeando de camiseta nas praias cariocas”, e tremia. Assim como o público.

Radio gaga

Deu dó do Radio 4. A banda entrou no palco sob o vácuo dos FF para encarar um Espaço das Américas esvaziado, com boa parte da platéia já a caminho de casa ou na fila de autógrafos dos escoceses. Relegados a atração B, depois da estrela da noite, os novaiorquinos fizeram um show morno, ideal só pra quem já conhecia o som.

Radio 4 @ Motomix 2006, foto Natalie Gunji

Apesar de burocrático, o quinteto preparou um resumo da sua já velha carreira, começando com “Enemies like this”, do último disco, e viajando por “Calling all enthusiasts”, “Ascension street”, “Too much to ask for”, “Start a fire”. Nem o repeteco do super-Olodum, com todos no palco de novo, desta vez atacando os bongôs do percussionista em “Dance to the underground”, brilhou como deveria. Mereciam muito mais.

Off the hook

É engraçado ver que nem mesmo a organização do Motomix botou muita fé na popularidade da sua escalação eletrônica, transferindo o DJ set de Peter Hook, baixista do New Order, para o segundo dia do festival. Espertos eles, já que a rebordose eletrônica do domingo primou pela cabecice desenfreada.

A tarde começou no seu ápice, com os alemães do Schneider TM tocando seu ótimo ambient meio dark, meio post rock, para absolutamente ninguém. Na seqüência, o set dispensável de Andrew Weatherall e o minimal de Swayzac e Isolée – o primeiro, bem funkeado, muito mais divertido que o segundo, um balde de água fria experimental que não engrenou no meio do dia. E pra piorar a situação, como sempre acontece, a paulistada chata preferiu assistir a dançar, o dia inteiro. Deviam estar analisando os movimentos semióticos dos glitches nas caixas de som, ou algo tão interessante quanto.

A animação real ficou por conta de Peter Hook e seu set farofento, que irritou a intelligentsia eletrônica da cidade. Hook não é um DJ mas, como todo mundo hoje em dia, assume essa persona para se divertir. E foi isso que o baixista entregou para quem quis receber: diversão gratuita.

Peter Hook @ Motomix 2006, foto Natalie Gunji

Já começou jogando baixo, com “She’s lost control”, do Joy Division, passou por Nirvana, Blur, “My finger is on the button” e mais algumas do Chemical Brothers, “Anarchy in the UK”, a baba eletrônica “Just fuck”, mais “Love will tear us apart” e, óbvio, “Blue monday” e “Bizarre love triangle”, da sua própria banda.

Mas se o set, apesar de divertido, não teve nada de original, o espetáculo ficou por conta do próprio Hook. No alto dos seus cinqüenta anos, ele encarna um moleque sobre as picapes, pulando, fazendo mímica para o público, inventando poses e dancinhas. Parecia estar se divertindo tanto quanto quem desacelerou o senso crítico na platéia, se tornando a grande imagem do festival. Pena que tocou no dia errado.

Motomix, (mais ou menos) minuto a minuto II

Sunday, September 17th, 2006

E o Motomix continua com seu motokarma.

. Hoje, day after, rebordose eletrônica, o lineup já mudou umas três vezes. Nesta última, o brasileiro Gui Boratto e os imperdíveis Addictive TV (que também já começaram abençoados no país) foram chutados da lista.

. Schneider TM abriu o dia, tocando seu dark espacial para… motoninguém. Contei 70 pessoas na audiência – incluindo jornalistas, fotógrafos e provavelmente alguns seguranças.

. Andrew Weatherall, que originalmente era o nome de encerramento do festival, está agora no palco. Na platéia, 75 pessoas – deve ser o momento de folga de alguns faxineiros. Mas é compreensível: quem se importa com um DJ Set? Mesmo com toda a importância do rapaz via Madchester e etc, eu é que não.

. Ontem, uma faixa gigantesca anunciava os ingressos esgotados. Agora, meia dúzia de sulfites coladas na bilheteria dizem: “Ingressos promocionais a R$60″. Saca inversão de valores? Então.

. Swayzac tocando, minimal hardcore. A platéia cresceu. Em frente ao palco, cerca de 250 pessoas. Uau.

. Isolée, cada vez mais chato. É do tipo de minimal que mesmo quando engrena, não engrena. Deviam ter escalado o cara como primeira atração, sem público, bem isolée.

. Afinal, eu sei que todo mundo está aqui só pra ver o Peter Hook tocar “Blue monday”.

. Tá, “Blue monday” ainda não rolou. Mas teve “Bizarre love triangle” na primeira meia hora. Hah.

. Hook não é DJ, mas bateu de frente com todas as cabecices fervidas do dia. Quase como uma festa de garagem. Contei três do Joy Division, mais Pistols, mais Blur, mais Chemical. E, claro, “Blue monday”.

E chega, que estou virado há 36 horas por conta desses shows, caindo pelas tabelas. Adult. vai ter que ficar pra outro dia, depois alguém me conta. E também depois eu desenvolvo esse monte de frases de efeito.