Quando a piauí foi lançada, lá pelo mês passado, eu resisti muito para não escrever sobre ela. Tudo para não parecer babão ao extremo. Só agora, depois de ler o segundo número (que deve chegar hoje às bancas), é que me arrisco.
A babonice, porém, vai continuar. Afinal, a revista me pegou pelo rabo. Não por ser batizada com o nome de um estado que ninguém sabe apontar no mapa ou pelo seu vistoso formato gigante, impossível de manusear dentro de um ônibus. Mas pelo alto nível do que gasta tinta ali dentro.

É só pegar a piauí e perceber que ela é um oásis dentro da pasmaceira das bancas de jornais brasileiras. Sua páginas passam longe das pautas idiotas ou escandalosas das semanais ou da cabecice de prateleira das culturais. Vão longe até do factual hard news, refletindo a vida real - aquela que passa e continua, com ou sem mensalão, sem se afetar com a última fusão entre conglomerados telefônicos ou com a última decisão dos pesquisadores sobre os malefícios/benefícios da gema de ovo. Eles vão naquela linha de arrancar textos sobre as picuinhas do cotidiano.
E, claro, não é só texto. É TEXTO. Porra, há quanto tempo não se publica uma revista mensal com quatro colunas de verborragia bem cuidada? É um alívio ver, por exemplo, que Danuza Leão ainda consegue ir além do cocozinho que escreve na Folha de São Paulo e produzir um perfil genial de quatro páginas sobre o estilista Guilherme Guimarães. Ou folhear as pirações de Ivan Lessa, a crônica da talentosa C. Giannetti, a mistura de texto nonsense com reportagens sérias. Eles abrem espaço até para Edward Sorel! Tudo ali era um alívio.
Ok, eu avisei que ia babar.
O segundo número é lançado agora, depois de os editores esburacarem a coluna de Monica Bergamo na semana passada (aspa: “O segundo número de piauí ainda não tem capa nem assuntos definidos.”). A capa vai de encontro (de propósito?) com a negação da equipe sobre as comparações com a New Yorker: a ilustra de Che com uma camiseta estampada com Bart Simpson, de Matthew Diffeee, foi publicada na revista americana há mais de dois anos.
Mas, lendo, talvez a nota da Folha não estivesse tão errada. Algumas coisas ali parecem realmente ter sido fechada às pressas - principalmente o primeiro texto, sobre a Via Dutra, que tem uns erros bizarros de vírgula e craseamento. O charme também se perde em alguns escritos sem muito brilho do # 02, incluindo os que faziam rir na primeira edição.
De qualquer forma, a revista ainda vale o gasto de papel. Novamente pelo perfil e, principalmente, pela autobiografia em quadrinhos do Angeli, que conta como os Rolling Stones salvaram sua vida (”‘Satisfaction’ cabe aqui? / ‘Satisfaction’ não cabe aqui!” é a melhor gag pop dos últimos tempos).
Apesar de tudo, eu continuo babando. Afinal, tinha que ter algum motivo para ter assinado por dois anos sem nem mesmo ter lido o número inicial.



