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Assunto: jornais

“Se fosse o New Order, tudo bem, claro”

05.09.2006 @ 17:31One Comment

Dois exemplos recentes de textos nonsense em espaços nobres da imprensa cultural:

Um. Tirando o atraso dos jornais, li a coluna de Thiago Ney na Folha de sexta-passada. Ele, que ocupou o espaço semanal dedicado ao último grito do hype, fundamentado no jornal por Lucio Ribeiro, se esforçou no quesito ‘opinião bizarra’. Aspa:

“Ok, Bob Dylan é lenda, e Modern times está longe de ser ruim, mas… Será que o mundo precisa tanto assim de um novo disco do Bob Dylan? (se fosse o New Order, tudo bem, claro). O que eu sei é que sempre precisamos de bandas como Automatic e Be Your Own Pet. Bandas jovens que fazem música para jovens. No festival de Leeds, na semana passada, teve gente que ficou para fora da tenda de 8.000 pessoas. Dentro, adolescentes gritavam suas músicas. Tudo bem novo, tudo bem 2006.”

Aí fica a pergunta: o que importa é o novo pelo novo? Sem análise de valor? Não quero endeusar Dylan ou detonar a BYOP, mas…

E afinal, se pegarmos a última frase e substituirmos o personagem (que não dá pra entender qual das duas bandas é), o contexto cai como uma luva em Milli Vanilli. Ou, sei lá, Menudo.

Dois. Na Bravo! do mês, José Flavio Junior dedica uma página a Regina Spektor. E diz, aspa:

“Certos artistas não ficam bem em prateleira alguma. Você tenta associá-los a um gênero, a uma cena, a uma tendência moderna ou revivalista… Só que nenhum rótulo satisfaz. Claro que, em 2006, essa é uma espécie bastante rara.”

Rara onde? Opinião é opinião, OK. Mas um embasamento histórico, às vezes, ajuda. E esse parágrafo cai por terra assim que a gente começa a dissecar o conteúdo das estantes de qualquer loja de discos.

Ou sou eu que vivo em um universo paralelo?

O sol de quase dezembro

10.08.2006 @ 17:57No Comments

Neste post e no anterior, duas críticas rápidas sobre filmes que chegam amanhã aos cinemas. Os dois brasileiros, os dois documentários. Um é realmente bom, sobre um assunto que nem é tanto. O outro, sobre um tema excelente, é meia boca, mas vale os cobres da entrada. Vai assistir e tenta adivinhar qual é qual.

O sol - Caminhando contra o vento
(publicado originalmente @ Omelete)

O Brasil tem uma história pródiga no quesito ‘imprensa alternativa’, que vem sendo re-observada e documentada aos poucos nos últimos anos. Principalmente a importante fase dos anos 60/70, da resistência à repressão e às fardas: o Pasquim virou uma coletânea nas livrarias, o Pif Paf de Millôr também ganhou versão luxuosa de prateleira. E agora, via documentário, o cinema resgata a história do menos conhecido O Sol.

O sol - Caminhando contra o vento

Criado pelo jornalista e poeta Reynaldo Jardim em 68, O Sol era um encarte diário do Jornal dos Sports, um projeto romântico de jornal-escola, feito para aproveitar a molecada idealista que saia das faculdades. Durou seis meses nas bancas, até ser desmantelado pela censura.

Produzido pela dupla Tetê Moraes e Martha Alencar, integrantes da equipe do jornal, O Sol – Caminhando contra o vento se baseia em uma reunião afetiva de estrelas do universo intelectual carioca da época, um petit comité de cérebros. É a desculpa perfeita para uma seqüência de discursos informais de um elenco gigantesco – de Hugo Carvana a Arnaldo Jabor, de Ziraldo a Ruy Castro, e a trinca musical da época, Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso (que, aliás, eternizou o jornal na letra de seu clássico “Alegria, alegria”: “o sol nas bancas de revista / me enche de alegria e noticia / quem lê tanta notícia?”).

No fim das contas, o documentário parece o encontro de um grupo nostálgico de adolescentes, que se reencontra para lembrar os brinquedos de sua primeira infância. É bonito de se ver, uma pequena homenagem a uma geração que começou em 68 e influencia a cultura brasileira até hoje.

Mas fica um vácuo de história, de uma análise mais aprofundada sobre esse formato de imprensa, sobre o tal “sonho revolucionário” – que realmente acabou, mas que tanto fez pelo país.

Cuba libre, Cuba pop

06.08.2006 @ 23:06No Comments

Jornalista bom é aquele que vomita um texto de quase 55 mil toques e que faz o leitor, depois do ponto final, ficar com vontade de investigar o assunto in loco.

Exemplo é a reportagem de Jon Lee Anderson, publicada na New Yorker há 15 dias e reeditada no Mais!, hoje. Especialista em mostrar o mundo lá fora aos norte-americanos, Anderson faz um raio x da sociedade e da revolução cubana nestes dias, à beira dos 80 anos de Fidel Castro - completados no domingo que vem.

Claro que a mitologia que ele tinha em mãos ajudou, mas o texto dá uma inveja das grandes em qualquer um que se esforce em escrever textos decentes. Dá pra acessar a íntegra no site da revista ou, se você tiver uma senha e muita preguiça, a versão traduzida na Folha.

Como bônus track, a New Yorker contextualizou o material, em face da retirada de Castro de cena (a reportagem foi publicada antes), com uma rápida entrevista com Anderson.

Leia. E veja se não dá vontade de passar uns meses em Havana.
Será que a Juventude Socialista financia passagens?

Oi?

02.06.2006 @ 22:06No Comments

Aspa: “A banda de MPB eletrônica com levada trip hop”.

Esse é o conceito da carioca Los Hermanos, que faz show em SP na quarta-feira, segundo o Guia da Folha.

Tive que reler a nota quatro vezes para ter certeza que a piração ali não era minha.

Neo-Folhão

21.05.2006 @ 19:07No Comments

Eu tenho tendência a gostar dos projetos gráficos da Folha. Esse que estreou hoje foi pelo mesmo caminho. À primeira folheada, parece ótimo: bonitão, boa fonte, diagramação de fotos inteligente e páginas mais respiráveis. Grandes defeitos, só com uma análise mais aprofundada. (Tá, lembra a última grande reforma do Estadão, mas não conta pra ninguém)

Já a Folha Online, que também foi reformada, acaba dando dor de cabeça de tanto link na página principal - defeito amaciado nas subs que já aderiram ao novo visual. E eles adotaram features da web 2.0, como o box de notícias mais lidas, coisa que o New York Times já alimentava.

Vale nota também o comercial sobre o projeto, via W Brasil.

E o prêmio de rata do dia vai para a Ilustrada, com sua página dedicada a Neil Gaiman, que nega a existência da tradução de Caroline, livro lançado por aqui há mais de três anos pela Rocco. Isso sem contar, sendo mais cri-cri, a legenda da foto que credita à Morte a direção de sua própria cinebiografia. Heh.

Pronto, taí o primeiro defeito da nova Folha: se as fotos não fossem tão grandes, talvez sobrasse um mísero cantinho para falar mais sobre o novo livro, Os filhos de Anansi.