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Assunto: cinema

Falando turco

07.06.2007 @ 15:42No Comments

Vou te falar: rap turco é o que liga.

Atravessando a ponte - O som de Istambul
(publicado originalmente @ Omelete)

Às vezes, grandes filmes rendem bons filhotes a partir de seus bastidores. É o caso deste documentário, dirigido por Fatih Akin.

Durante a gravação da trilha sonora de seu Contra a parede, que o consagrou em 2004, Akin ficou impressionado pela comunicação musical entre o clarinetista turco Selim Sesler e o músico alemão Alexander Hacke. No ano seguinte, contrariando as expectativas da crítica, que esperava mais um filme de ficção, o diretor lançou este Atravessando a ponte, um documentário sobre a atual cena musical e cultural de Istambul, a megalópole da Turquia.

Alemão descendente de turcos, Akin é obcecado em escavar e traduzir a cultura dos seus antepassados. Aqui, ele vai fundo no que habita os ouvidos do povo local. Hacke, músico da lendária banda germânica Einstürzende Neubauten, assume o papel de personagem principal e alter-ego do diretor na documentação, desembarcando em Istambul com um mini-estúdio nas malas para gravar a música que não chega nas fronteiras pop do circuito ocidental.

Atravessando a ponte - O som de Istambul

A ponte do título faz referência à própria Turquia. Encravado no limite entre a Europa e Ásia, o país costuma ser referenciado como uma “ponte” entre o Ocidente e o Oriente, fundindo as duas culturas em uma massa singular. A música do lugar, como não poderia deixar de ser, se aproveita dessa bagunça de referências de cá e de lá – e é esse retrato que o filme traça.

Didático, Akin faz questão de iniciar a viagem com imagens facilmente mastigáveis pelos ocidentais – como o Baba Zula, grupo apadrinhado por Mad Professor, que se beneficia dos cenários naturais para criar psicodelias sobre ritmos locais, os roqueiros do Duman e da Replika, uma “versão turca” de Sonic Youth. Essa primeira fase exibe também o hip hop de Istambul, politizado, com mais referências ao Public Enemy do que ao gangsta. Acompanhar o rapper Ceza cantando em turco se prova uma experiência e tanto para os acostumados ao som que vem dos EUA.

À medida que o filme avança, o diretor apresenta as sonoridades de maior ligação com a borda oriental do país – mas sempre aos poucos, com consciência de que pode enfrentar uma audiência sem paciência para aprender mais sobre a baglama, instrumento especialidade de Orhan Gencebay, uma das grandes estrelas do país. Sem inovar muito na forma, Akim se detém mais no conteúdo: na montagem final, depois de mais de 150 horas de gravação, dá mais espaço para a música do que para grandes discursos (apesar de revelar sensacionais personagens, como o enfant terrible Erkin Koray, na ativa desde a década de 50). Pode ser um problema, já que poderia se aprofundar mais em como funciona a relação dos músicos turcos com suas influências vindo de lados diferentes do globo. Mas alcança seu objetivo ao instigar sua platéia ao Google, em busca de mais detalhes sobre o rol apresentado na tela.

A ponte está aí, mais aberta do que nunca. É só aproveitar.

A rosa no moinho

06.04.2007 @ 17:28No Comments

Quando vi esse filme na última Mostra, passei uma hora e meia pensando na morte dalguma bezerra e não consegui sacar a excelência da coisa. Revi nesta semana e taí: direto pro topo dos grandes musicais nacionais. 

E ganha menção também pela campanha de marketing, com pessoas distribuindo rosas em botecos da cidade (alusão a “As rosas não falam”, música de Cartola), com um convite para assistir ao filme.

(Aliás, sabia que Cartola deu nome a um navio cargueiro da Petrobrás? Lá, é primo do Ataulfo Alves.)

O que eu não consigo entender é o motivo de terem distribuído mais fotos de divulgação com o Nelson Sargento (que toca no filme, vá lá) do que do próprio Cartola. Até no site oficial é assim. Vão começar a chamar Nelson de outro nome, aí quero ver.

Cartola
(publicado originalmente @ Omelete) 

Poucas vezes se viu, na história da música brasileira, figura tão fascinante quanto Angenor de Oliveira, o Cartola. Endeusado por qualquer um que conheça um pouquinho que seja do riscado, o sambista ganha agora um documentário à altura de seu nome, resultado de anos de trabalho da dupla Lírio Ferreira e Hilton Lacerda.

Cartola, foto Milton Montenegro

A veneração ao homem não é gratuita. Dono de uma vida cheia de altos e baixos, Cartola é o estereótipo daquela simplicidade quase inocente da vida no morro carioca, que não existe mais. Carregado de um lirismo que não aprendeu na escola (que não freqüentou), compôs uma série das grandes pérolas do velho samba de violão, viu sua estrela brilhar tarde demais e, ainda assim, não trocava seu conhaque com cerveja por badalação nenhuma.

A história do artista Cartola, nascido em 1908, começa nas décadas de 1920 e 30. É aí que funda a Mangueira, escola de samba com quem teve uma relação de amor e ódio, e começa a vender suas composições para baluartes da música da época – como Francisco Alves e Mário Reis – se torna amigo de Villa Lobos e Noel Rosa e é gravado por Carmen Miranda.

Sua fase mais reconhecida hoje vem do final dos anos 50 quando, depois de uma época de ostracismo, em que chegou a ser dado como morto, é encontrado por Stanislaw Ponte Preta (persona de Sérgio Porto, dos jornalistas mais influentes de então) trabalhando como lavador de carros. É então que, já casado com Dona Zica, vira personagem valioso do meio artístico, fazendo seus primeiros shows solo. Seus únicos quatro discos foram registrados entre 74 e 79, pouco antes de sua morte, em 1980.

O grande mérito de Cartola, mais do que ser um retrato fiel do compositor carioca, é se mostrar um filme tão extraordinário quanto seu personagem. A dupla não se limita a contar a história de Angenor, ponto a ponto, como um documentário comum: prefere construir um mosaico poético sobre ele, fazendo paralelos sutis à história cultural e política da época.

Daí que, a partir das cenas iniciais sobre o enterro de Cartola, ilustram sua vida com imagens do cinema nacional (referenciando, por exemplo, Júlio Bressane e Aviso aos navegantes, chanchada com Oscarito) e trechos ficcionais. A montagem é um dos grandes destaques do documentário, ao lado da sensacional pesquisa de arquivo, que resgata imagens raras do músico (em programas de auditório, cantando ao lado de Chico Buarque, material jornalístico ou em momentos pessoais, ao lado do pai). Os musicais e depoimentos recuperados também são preciosos, como as imagens de Madame Satã, Donga, Pixinguinha e Elza Soares.

A carga lírica acaba por comprometer um pouco da necessidade factual do documentário, com alguns aspectos da vida de Cartola analisados superficialmente ou ignorados pelo recorte final – a origem do apelido, seus programas de rádio, os conflitos que resultaram no seu afastamento da Mangueira ou os anos em que passou longe de tudo (resumidos pela tela enegrecida, embalada pela voz de Elizeth Cardoso). Defeitos que poderiam ser resolvidos com alguns minutos a mais de filme.

Mas nada disso tira o brilho da produção. Cartola não é (e nem se propõe a ser) um retrato definitivo sobre o sambista mais querido do Brasil. Já se basta em prestar uma bela homenagem a Angenor, à beira da marca dos seus 100 anos de nascimento. E se gerar uma curiosidade maior sobre o homem e sua obra, já cumpriu muito bem sua missão.

O melhor do Oscar

26.02.2007 @ 04:15No Comments

Foi o anúncio especial do iPhone, com colagens de filmes ao telefone.

Que você não viu, já que estava ocupado demais cantarolando o jingle insuportável da Nívea na TNT.

Estátua de Prozac

26.02.2007 @ 04:07No Comments

O Oscar é sempre assim. Você começa achando que vai se divertir horrores, prepara pipoca e a almofada e, no final, se não dormiu, sai xingando o tempo perdido. Sempre.  Desta vez não seria diferente - e ainda teve a aterrorizante careca de Jack Nicholson, para assombrar o resto da noite. Diga oi:

Oscar, Jack Nicholson

Nem Ellen Degeneres, nervosa como um colegial na feira de ciências, salvou - dá pra contar nos dedos as piadas realmente boas da noite.

Jennifer Hudson, pelo menos, levou seu merecido troféu como coadjuvante e ainda espinafrou Beyoncé nos duetos ao vivo. Deu dó da moça, principalmente quando ela se enfezou e resolveu berrar como uma gazela.

Mas as músicas de Dreamgirls - que não são geniais, mas ainda assim - acabaram derrotadas pelo choro lesbian green da Melissa Etheridge. Isso, e colocar Celine Dion para “homenagear” o bom e velho e genial Ennio Morricone, só prova que esse povo não entende picas de música.

Dá-lhe, que a essa hora nem sarcasmo eu consigo fazer.

Nada de Last days

21.02.2007 @ 16:18No Comments

Pra quem ficou empolgado com a notícia de que Last days, filme do Gus van Sant mezzo sobre Kurt Cobain, seria lançado aqui em DVD depois de dois anos de atraso, um balde de cinzas. Segundo a Warner, o disco saiu da grade de lançamentos de março, sem previsão de retorno. Nem veio e já foi.