Archive for the ‘cinema’ Category

Confissões de super-heróis

Monday, October 20th, 2008

Esse Confissões de super-heróis é um dos melhores nerdocumentários que já vi. Tinha assistido no começo do ano e de repente ele está na seleção da Mostra. Dica certa.

O filme retrata quatro atores fracassados que ganham dinheiro encarnando super-heróis na Calçada da Fama, em Hollywood, e posando para fotos com os turistas que passam por ali. São quatro personagens: um Huk negro, uma Mulher-Maravilha ex-cheerleader, um Batman com problemas de controle de raiva e um Super-Homem pirado.

Confissões de super-heróis

É esse último a estrela loser do doc. O cara se parece com o Christopher Reeves (tem até o mesmo nome) e dedica a vida ao super-herói. Tem uma casa entupida de memorabília e não sabe pensar (e falar) sobre outra coisa. Até a moral, se esforça em copiar. Enquanto os companheiros de filme estão mais para ganhar a vida, ele é daquelas crias meio obsessivas do mundo dos quadrinhos, de dar medo.

Além de bom, o filme tem uma fotografia massa e uma trilha sonora bem boazinha – assinada por Greg Kuehn, que já fez parte do TSOL.

Cortina de fumaça

Saturday, October 18th, 2008

A Mostra é o tipo de evento que reúne uma parcela massiva de fumantes. E esta é a primeira edição (se não me engano muito) que acontece sob a fiscalização anti-tabagista mais pesada. Não quero discutir nenhuma polêmica contra ou a favor da proibição (ainda mais por ser fumante – logo, culpado), mas isso gerou um fenômeno curioso ontem à noite, durante a exibição de Loki.

Fazia tempo que não ia ao Cinesesc, mas sabia que o hall interno já tinha se tornado área de não-fumaça. A novidade é que o bar dentro da sala – originalmente criado para que os espectadores pudessem fumar durante o filme – também virou no smoking. Acho um saco, mas compreendo.

Ontem, antes do início da sessão, o que se via era o feitiço contra o feiticeiro. Todos os fumantes ocupavam a entrada do lugar, aproveitando o único lugar liberado – platéia, um dos projecionistas, até o próprio Arnaldo Baptista, com seu cigarrinho cinzento. Todo mundo que chegava dava de nariz com um fumacê concentrado na rampa de entrada do cinema. Um calvário para os não-fumantes.

Pirando

Saturday, October 18th, 2008

“É uma espécie de honra estar aqui, em função de um passado.” – Arnaldo Baptista

Piração, cada um tem a sua.

Enquanto todo mundo se horrorizava com a loucura do seqüestrador de Santo André (candidato ao Oscar 2010?), o Cinesesc abrigava uma piração mais “saudável e generosa” (entre várias aspas): a estréia paulistana de Loki, documentário sobre Arnaldo Baptista, dentro da programação da Mostra.

Loki

Arnaldo é daqueles gênios que, de tão venerados, têm sua história pessoal mergulhada em mitos. Criador do real rock brasileiro, à frente dos Mutantes. Roqueiro que nunca parou de fritar no ácido. Suicida. Pirado. Nosso Brian Wilson, nosso Syd Barrett, depende da sua fase, depende de quem vê.

Loki é um belo trabalho de redenção de um personagem precioso. O documentário desmistifica a carreira de Arnaldo, mostrando como o moleque apaixonado e talentoso dos anos 60/70 se tornou um músico sisudo e compenetrado, por conta do LSD e da separação (nunca superada, dá pra ver bem) de Rita Lee; se perdeu no seu interior, tentou suicídio e foi resgatado por uma nova alma gêmea, novos amigos, novo hobby, neurônios parados num velho espaço-tempo todo particular. Talentoso e genial mas, lá dentro, só um cara meio perdido e machucado.

“Eu fui levando a vida assim, diante das injustiças”, ele diz, sobre suas várias passagens em hospícios. Em outro momento, deixa bem claro nas entrelinhas que tentou se matar “em homenagem ao aniversário de quem me internou pela primeira vez”. Ou seja, o velho fantasma de Rita (que faz aniversário no dia 31/12. Arnaldo se jogou pela janela no réveillon de 1982).

Ao mesmo tempo, o que é legal, o filme serve pra mitificar ainda mais o homem, uma das maiores jóias do nosso rock. Afinal, não é nada fácil explicar o que se passa/passou pela cabeça de Arnaldo. Ele bem tenta deixar claro, naquele seu jeito de falar que é tão inocente quanto brilhante de tão simples. Duro é acompanhar.

Loki tem o mesmo efeito do show dos Mutantes no começo de 2007, no Parque da Independência. Lá, era difícil não ficar emocionado pela presença dele. Com o filme, também.

Assim como ver Arnaldo ser ovacionado por cinco seis sete minutos, dentro de um cinema lotado. Do jeito que anda a coisa aqui fora, a cabeça dele está muito melhor.

Loki tem pelo menos mais duas exibições na Mostra. Corre.

Tom Zé, Tom Zí

Tuesday, July 17th, 2007

Harry Potter que nada. Em matéria de bruxaria, eu fico com Tom Zé, que teve estréia tímida nesse final de semana.

Nem falo no texto, mas o cartaz é tão bom quanto o filme.

Fabricando Tom Zé
(publicado originalmente @ Omelete)

Fato: Tom Zé é o músico mais inventivo a criar no Brasil há décadas. A partir de sua genialidade tortuosa, de quem se considera um péssimo compositor, mais suas experimentações com canções populares e a escola de música sofisticada que teve estudando com Hans-Joachim Koellreuter e Walter Smetak, constrói pepitas que se sobrepõem, disco a disco. Tropicalista por natureza, que nunca precisou do movimento para se justificar, se mantém coerente até hoje – afastado das multidões brasileiras por malvadeza do destino.

Fato: o público brasileiro tem a péssima mania de ignorar o que é produzido perto do seu próprio umbigo, numa seqüência infeliz de auto-vandalismo patriótico. A coisa só muda de figura quando o pau brasil é apadrinhado pelo povo acima da linha do Equador. A síndrome da colônia ainda vai até a medula.

Diante disso, é excepcionalmente bom ver o músico retratado em um bom documentário como é este Fabricando Tom Zé (2007), primeiro filme de Décio Matos Jr. O diretor paulistano conseguiu resgatar um bocadinho da figura de Tom, antes que algum cineasta estadunidense o fizesse. Ponto pra nós.

Fabricando Tom Zé

Produzido a duras penas, sem dinheiro e com parco patrocínio, Fabricando merece louvor por dissecar seu personagem sem excesso de distanciamento ou firulas dramáticas construídas. Pelo contrário, o longa é tão sincero quanto o músico, que não tem papas na língua e é um dos poucos medalhões da sua época que não perde seu tempo em politicagens. É um trabalho de carinho do diretor pelo seu astro, como este tem pela sua música, suas rosas e sua mulher.

A estrutura do filme é simples e eficiente. A linha narrativa é uma turnê que Tom Zé fez pela Europa em 2005. À medida que os shows avançam, a biografia do músico é rapidamente passada a limpo: da sua infância em Irará, na Bahia, à integração com os tropicalistas, as décadas de ostracismo e sua redescoberta através dos ouvidos de David Byrne, que o levou para a glória no Hemisfério Norte.

Mas a história de Tom Zé fica em segundo plano no filme, em face de seu pensamento todo particular. Adotando a câmera da equipe como sua aliada, e não como uma intrusa na rotina, o músico se abre para a gravação. Daí vem suas relações com sua banda, o amor de 35 anos pela esposa, suas teorias musicais. A seqüência mais impressionante do filme surge daí, quando Tom esculhamba a produção do Festival de Montreux e revela toda uma posição político-musical sobre o tratamento dos estrangeiros sobre as culturas subdesenvolvidas.

Nesse foco, a música do compositor passa ao largo, sem uma abordagem mais detalhista, o que pode frustrar parte da audiência. Mas com personagem tão profundo, é difícil analisar tantas facetas em hora e meia de filme. O assunto renderia um Fabricando Tom Zé II, III

Em tantas histórias, o único defeito de fabricação do longa se fia justamente no episódio Tom Zé vs. Tropicalistas, quando o músico se separou do grupo, caiu no esquecimento e foi alvo de uma suposta “conspiração” para diminuir sua importância da época. Faltou ali uma espremida maior, para tentar esclarecer a história. Caetano Veloso e Gilberto Gil fazem um mea culpa em seus depoimentos, Tom parece disfarçar um certo rancor e o acontecido continua como uma das histórias mal explicadas da MPB.

Last days na locadora

Friday, July 13th, 2007

Depois de promessa e despromessa, a Warner finalmente soltou Last days no Brasil. O filme de Gus Van Sant, não-biografia sobre o suicídio de Kurt Cobain, chegou agora às locadoras e começa a ser vendido na semana que vem.

Com direito a extras e tudo.  E a vantagem do nome traduzido ao pé da letra, Últimos dias.

Podia ser pior, bem pior.
Last days – Explodindo o cabeção, por exemplo. Ou Um roqueiro muito louco de verão.