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Assunto: auto-clipping

Al-fa-rror

22.03.2007 @ 21:40No Comments

Já tentou comer seu alfajor hoje?

Café Havanna sem alfajores
(publicado originalmente @ Chic

São Paulo está vivendo uma crise internacional de proporções épicas: todos os pontos de venda da confeitaria Havanna estão sem seus tradicionais alfajores no estoque.

“Nosso carregamento está preso na alfândega há quase um mês. Mas deve chegar até a semana que vem”, explica o atendente do Café Havanna nos Jardins, com a cara de quem repete a mesma história dúzias de vezes ao dia. Sem exagero: em meia hora de uma quarta-feira, a loja foi visitada pelos tipos mais variados, atrás da mesma coisa. E o choque é sempre o mesmo. Reflexo do sucesso da marca no Brasil – a franquia argentina chegou no meio de 2006 e, até o fim do ano, já tinha batido um milhão de alfajores vendidos.

Antes de tremer de decepção, saiba que o cardápio do lugar ajuda. Se a opção de doces para comer nas poltronas gigantes está restrita, a variedade de ‘bocaditos’ (como eles batizaram seus salgados) é surpreendente. Vale experimentar o Belgrano, roll de roast beef com chimi churri (R$ 12), ou o San Telmo, com cogumelos e mussarela de búfala na ciabatta (R$ 9).

No acompanhamento, como boa cafeteria que é, o Havanna oferece drinks feitos de café. A recomendação máxima é se aventurar nas camadas multicoloridas do novo Granadine Frizz (leva água com gás, granadine (xarope de romã) e gotas de limão e custa R$ 7) ou com o Brisa do Verão, combinação de café com iogurte de baunilha e pêssego, receita premiada do barista Éder Ferreira, que assina o balcão da casa.

Os cafezistas mais tradicionais têm como opção o expresso normal (R$ 2,50), que disputa espaço com o Café Havanna (com leite condensado e canela, R$ 5). Ou o mais pedido da casa, o Havana Shake, batido de café com o sensacional “dulce de leche” argentino (R$ 9).

Falando no doce, não tem como não lembrar dos alfajores proibidos. Enquanto eles não vêm, afogue as mágoas com as galletitas, bolachinhas com recheio sabor limão (R$ 2,50 cada), ou com as barras de doce de leite (R$ 2,50). É açúcar suficiente para dar energia e começar logo uma passeata contra a burocracia alfandegária.

Havanna Café
R. Bela Cintra, 1829, Jardins, São Paulo - SP
Tel. 11-3082 5722

Funga minha cueca

16.03.2007 @ 19:19No Comments

Pelo menos, eu me divirto.

Test drive: cueca perfumada
(publicado originalmente @ Chic)

“Oi, cheira minha cueca?” A frase não é das melhores, mas é o que deu vontade de sair dizendo por aí quando vesti o alvo deste nosso primeiro test drive: uma cueca perfumada. Minha sorte é que desisti da proposta logo de manhã – se já seria uma cantada medonha na pior sauna gay da cidade, imagina se eu falasse isso para o porteiro do prédio.

A cueca é lançamento da Upman, marca de underwear do Rio Grande do Sul. A novidade, segundo a empresa, são as microcápsulas de perfume presas no tecido, que se rompem no contato com a pele. O cheiro é uma alquimia de couro, figo, patchouli, âmbar, madeira…

Mas a pergunta que fica, melhor do que a proposta do começo, é: para que serve uma cueca perfumada? Pela minha investigação com amigos, a resposta é taxativa: para nada. Uma cueca cheirosa é o equivalente do guarda-roupa ao papel higiênico com cheiro de frutas.

Não que o cheiro seja de todo desagradável. Na minha paranóia, o calor de São Paulo nessa semana fez com que eu andasse com uma nuvem de couro-figo-patchouli ao meu redor. Durante a tarde, passei a sentir o perfume no ar, em todos os lugares, principalmente nos dedos. Mas todo o resto da redação tratou de negar a minha loucura.

De qualquer forma, cheguei à conclusão de que essa cueca só serve mesmo para celibatários ou para quem não pretende dividir a cama com ninguém tão cedo – não seria constrangedor ter de lidar com um aroma repentino vindo de uma área tão… localizada?

Pelo menos a cueca é bem confortável, apesar de ser feita de tecido 100% sintético. Só estou esperando as microcápsulas sumirem – a marca jura que elas ainda duram trinta lavagens…

Doce de rainha

15.03.2007 @ 20:256 Comments

Nham.

O doce preferido de Maria Antonieta
(publicado originalmente @ Chic)

Se o filme Maria Antonieta tem mais alguma grande estrela além de Kirsten Dunst, esse brilho vai para o macaron, um dos mais tradicionais doces da pâtisserie francesa. Consumidos às dúzias pela rainha e suas consortes durante o filme, as cores pastel, a textura e até o formato do quitute também inspiraram boa parte do visual da produção – da fotografia aos figurinos oscarizados de Milena Canonero. E o que é que o macaron tem?

Macaron Ladurée

As histórias da sua origem são variadas. As primeiras versões da receita teriam sido trazidas de Veneza para a corte Francesa na época renascentista de Catarina de Médici (cerca de 200 anos antes de Antonieta chegar ao poder) – pelos chefs da rainha ou por freiras refugiadas em Nancy, conforme as diferentes explicações.

O que pouca gente sabe é que os primeiros macarons não eram como os de hoje. A massa, feita de suspiro com amêndoa em pó, era a mesma, mas o doce ainda não tinha recheio.

O macaron moderno começou a ser confeccionado no começo do século passado, pela pâtisserie Ladurée, em Paris. Foi aí que o docinho se tornou um sanduíche recheado com creme – os mais tradicionais são os de chocolate, café e baunilha. A Ladurée é ainda a casa mais tradicional a produzir a guloseima – são vendidas milhares de unidades por dia. São da Ladurée os doces que você vê no filme Maria Antonieta.

Em São Paulo, os macarons viraram febre há menos de dez anos. A receita é complicada, o nosso clima tropical briga com o frágil doce, mas mesmo assim ele se tornou figurinha fácil em casamentos chics – chegando a disputar lugar com os tão tradicionais bem-casados – e, em seguida, em bistrôs pela cidade. Veja abaixo o nosso roteiro e encare uma peregrinação atrás do seu macaron preferido. Acompanhando, peça um chá (como os franceses), um café ou, se preferir, uma bela taça de champanhe.

Le Vin Patisserie
R$ 2,10 cada
Al. Tietê, 178, Jardins, São Paulo - SP
Tel. 11-3063 1094

Deli Paris
R$ 2,80 o macaron grande, R$ 0,90 o mini
Rua Harmonia, 484, Vila Madalena, São Paulo - SP
Tel. 11-3816 5911

Le Fournil
R$ 1,50 cada
Rua Sena Madureira, 1355, Vila Clementino, São Paulo - SP
Tel. 11-5087 0888

Pati Piva
R$ 3 cada, R$ 28 a caixa com 10
Rua Oscar Freire, 154, Jardins, São Paulo - SP
Tel. 11-3062 5046

Comendo um francês

08.03.2007 @ 21:12No Comments

Esses bistrôs são afetados, mas divertidos. No cardápio deste, um dos pratos é descrito como “filé frrango grelhado”. Frrango. Só pode ser piada.

Paladar Chic: bistrô na madrugada
(publicado originalmente @ Chic)

Quatro da manhã, nos Jardins. Para quem está acordado e não quer cozinhar nem apelar para o velho cardápio da Galeria dos Pães, são poucas as opções no bairro. É aí que entra em cena o Paris 6, primeiro bistrô 24 horas da cidade, no coração da Haddock Lobo.

Paris 6, foto Eduardo Viveiros

Aberto desde setembro, o lugar é uma homenagem do seu criador Isaac Azar, dono da butique de azeites Azaït, aos clássicos cafés e restaurantes do Montparnasse e do sexto distrito parisiense, que abrigou a intelectualidade francesa do começo do século passado.

Se aqui a rua não é tão badalada – e tampouco se discute existencialismo com tanta propriedade como naquela época – o Paris 6 compensa o clima com seus garçons atenciosos, mesmo no meio da madrugada – detalhe raro na cidade. Outro fator positivo é o agradável salão principal, com pé direito alto e decorado com fotos de São Paulo em “clima parisiense” (obras da fotógrafa Bianca Cutait). Hits da chanson fazem a trilha sonora oficial. O incômodo maior é a disposição das mesas, apertadinhas, que acabam com qualquer privacidade – ainda que esse modelo seja fiel ao original.

O cardápio do bistrô, combinando com sua “boutique de vinhos” com centenas de títulos, tem pratos elaborados. Mas abre espaço merecido para as comidinhas, clássicos máximos da brasserie francesa, perfeitos para aquele lanche de noite adentro.

Tente os tradicionais Vol-au-vent (massa folhada recheada com frango e champignon ao molho bechamel, R$ 23) ou o Croque-monsieur (sanduíche quente de presunto, queijo emmental, molho branco e bechamel, R$ 19), que fazem sucesso entre os freqüentadores.

Para momentos de fome menos trivial, a recomendação vai para a sopa de cebola e emmental (R$ 19) e, nas noites de verão, as coxas e sobrecoxas de rã, grelhadas ao alho e óleo (R$ 39).

O Paris 6 também serve como ponto de encontro, mesmo sem o Sena por perto. Esqueça o cardápio e o salão e abrigue-se nas mesinhas ao ar livre, na frente do bistrô. A Haddock Lobo, com seu trânsito quase inexistente durante as madrugadas, serve como belo cenário para um café em ritmo de noite parisiense. Só não vale discutir Sartre.

Paris 6
R. Haddock Lobo, 1240
De segunda a segunda, aberto 24h
Tel. (11) 3085 1595

Pianíssimo

01.03.2007 @ 21:17One Comment

Admito que não ouvia Coldplay há anos. Andei tirando o pó dos discos nestes dias. Os dois primeiros, né? Que o terceiro…

Bateu até uma nostalgiazinha da época que “Yellow” era novidade no Soulseek (Napster? Audiogalaxy? Não lembro).

Coldplay em São Paulo
(publicado originalmente @ Omelete)

O que as pessoas parecem esquecer, ao colocar tão no alto essa última leva de bandas, é que elas estão todas ainda procurando seu caminho – não só dentro do rock, mas na sua própria estética.

É o caso claro do Coldplay que encerrou nesta quarta-feira (28/02), uma temporada esgotadíssima de três dias no Via Funchal, em São Paulo. Apesar da sua clara preferência por uma canção melódica, carregada no piano e no falsete de Chris Martin – que, gostem ou não, influenciou uma segunda geração de nomes – os ingleses estão perdidos nas possibilidades que criaram. Como o próprio vocalista definiu, são uma banda grande mas não ainda uma grande banda. Note a diferença.

Na sua primeira viagem até o Brasil (em 2003, também no Via Funchal), o Coldplay vinha carregado de bons presságios, graças a uma dupla estréia com bons discos: Parachutes, de 2000, e A rush of blood to the head, de 2002. Agora, os rapazes chegaram com a moral azedada, encerrando na América Latina a turnê de quase dois anos de X&Y, o sem graça terceiro álbum.

O histórico de qualidade da discografia do Coldplay se refletiu bem no começo deste terceiro show brasileiro. “Square one”, do último álbum, inaugurou a banda no palco de forma morna, abrindo espaço para os hits “Politik” (e os estrobos contra a platéia contrastando com o verso “open up your eyes”) e “Yellow”, respectivamente do segundo e primeiro discos. É como um termômetro que vai do negativo para o fervente, em três etapas.

Coldplay @ São Paulo, foto flickr/daigooliva

A diferença não é por acaso. As melhores músicas estão isoladas nos dois filhos primogênitos dos londrinos. As importadas de X&Y (com as honrosas exceções de “Speed of sound” e “Talk”) acabam aprisionadas na sua vontade megalômana, embolando o jogo melódico do grupo. Vide o momento messiânico de “Fix you”, última música do bis, com o vocalista teatralizando com um globo de luz nas mãos – o ápice construído só serviu para deixar uma imagem ruim no fechar das cortinas.

Mas, à parte o caminho perdido, o Coldplay é cada vez mais uma das bandas mais poderosas de sua geração. Afiados nos seus quase dez anos de estrada, o guitarrista Jonny Buckland, o baixista Guy Berryman e o baterista Will Champion, ainda fazem seus instrumentos conversarem entre si como se estivessem em casa. E, claro, deixam todo o jogo de luzes para Chris Martin.

Com toda a sua sensualidade nerd e suas dancinhas bizarras ao piano, como um Linus que trocou o cobertor pela cafeína, Martin assume seu papel de (ele que me desculpe) Bono ressuscitado. Carrega a platéia facilmente – mesmo com seu gênio excêntrico, tipicamente inglês, que o faz pedir silêncio entre as vaias que ganhou ao fazer uma piada sobre futebol.

Mas um show do Coldplay é feito de humores. O bom humor da banda tem que combinar com o da platéia, da casa, dos seguranças, da conjunção astral. Nesta terceira noite, a soma foi perfeita.

As músicas novas não apareceram, é verdade (“Temos medo da Internet”, eles disseram mais cedo.). Mas a pequena platéia que estava ali (e que pagou caro para ficar em pé entre as cadeiras) não ligou muito. Sobrou tempo até para a banda se transformar em mariachis (três violões e uma gaita, emendando “Til kingdom come” e a cover “Love me tender”) e Martin cantarolar um dispensável scat de “Garota de Ipanema”.

É esperar que esse humor afinado continue nos trabalhos de estúdio, ao lado de Brian Eno, para um quarto disco que faça jus à reputação da banda. Ou só vai sobrar nostalgia.