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Assunto: auto-clipping

Pianinho chubby, II

24.04.2007 @ 18:06No Comments

Uma semana depois…

Keane em São Paulo
(publicado originalmente @ Omelete)

Escuro de repente, a música de fundo ainda tocando no Credicard Hall, Tim Rice-Oxley entra correndo no palco e ataca seu piano como um Beethoven anfetamínico, abrindo espaço na base do susto para seus colegas do Keane.

A postura de desenho animado de Rice-Oxley, maltratando as teclas lunaticamente já nos dois primeiros hit, “Put it behind you” e “Everybody’s changing”, combina com o público que encheu a casa no segundo show da banda inglesa em São Paulo. Faz tempo que um show de rock na cidade não reúne uma porcentagem tão grande de crianças na platéia.

Keane @ São Paulo, foto Natalie Gunji

É sinal de que o trio inglês faz jus à fama que vem construindo, com suas melodias à base de pianos distorcidos, com um rock bonitinho e quase inofensivo. A falta de uma guitarra em fúria e a figura de rapazes bonzinhos dos integrantes produziu uma noite família, sem vontade de afrontar ninguém.

Não que eles se importem com isso, e nem deveriam. O Keane achou seu espaço, apesar das comparações pejorativas a Coldplay e U2 (que aparecem bastante na sonoridade da banda, mas não de um modo ruim), e não tem motivo para largar o osso.

E são competentes naquilo que fazem. O repertório dos dois shows paulistanos foi idêntico, misturando as faixas mais conhecidas dos seus dois álbuns, Hope and fears (2004) e Under the iron sea (2006), com tudo o que os fãs queriam ouvir. De “This is the last time” e “Somewhere only we know” a “Is it any wonder?” e “Bedshaped”, já no bis.

Falante, o vocalista Tom Chaplin se esforçou para agradar a platéia, com todos aqueles clichês de banda gringa. Falou português, jurou que aquela era a melhor noite de sua vida e, entre juras de amor e breve retorno, só faltou vestir a camisa da seleção brasileira que recebeu.

Assim como ele, o show é formatado para se mostrar dedicadíssimo à audiência. Uma plataforma deslocou o trio para tocar no meio da platéia – momento, aliás, das únicas cordas da noite, com um violão em “Your eyes open” e “Hamburg song”. E na introdução de “A bad dream”, um vídeo recitava o poema de W. B. Yeats (no qual a música foi baseada), com legendas em português. Tudo impecável no seu esforço de fisgar o povo.

O que falta no Keane, ironicamente, é emoção. Não se pode negar que a sonoridade da banda dá uma boa liga, mas Chaplin não parece sentir nada daquilo que canta, tornando tudo meio irreal na sua boa vontade. Coisa que até Chris Martin, seu predecessor de meia geração, consegue fazer melhor. E sem isso, o Keane acaba ficando relegado ao cargo de estagiários de sua linhagem britânica.

Comendo um oriental

20.04.2007 @ 12:34No Comments

Mais uma rápida diletância gastronômica. 

Expedição oriental
(publicado originalmente @ Chic) 

Japoneses só comem peixe cru, indianos não tocam em vacas e chineses são aficionados por carne de cachorro. Os mitos sobre a culinária tradicional do lado de lá do globo são muitos, mas poucos se esforçam para descobrir os detalhes daquela cozinha. A onda recente de cozinha japonesa, em São Paulo, ajudou a popularizar os sushis, criando uma geração de especialistas. Mas e os tailandeses e vietnamitas, o que comem?

Um bom modo de decifrar o enigma é uma visita ao restaurante East, aberto em 2005 e reinaugurado nesta semana. O ambiente do lugar, abrigado em um charmoso prédio da Alameda Jaú, nos Jardins, ganhou novo projeto de João Armentano, que aproveita melhor o espaço.

O cardápio também vem reformulado na nova fase do restaurante, com a cozinha tocada pelos chefs e irmãos Fabio e Maria Eustaquio. A inspiração, como antes, vem do proprietário, Michael Graham – um inglês apaixonado pelo Brasil, que acha uma pena a cozinha oriental ser tão ignorada no circuito paulistano – e combina as culinárias de seis países (Japão, China, Coréia, Vietnã, Tailândia e Índia). A idéia é grandiosa e funciona muito bem.

Apesar da diversidade de origens, o East não é dedicado à cozinha fusion, que tantos arrepios dá nos gourmets mais puristas. Cada país ganha seu cantinho no cardápio, sem que seus mundos se misturem. Por outro lado, alguns pratos recebem pitadas de sabores brasileiros. A idéia, segundo Graham, é transformar o restaurante em uma experiência, fazendo com que o cliente mergulhe nos sabores intensos das culinárias.

O extenso cardápio já chama a atenção a partir das entradas. O mais surpreendente (e divertido) são os Segredinhos de Alface, importados da Tailândia: o cliente recebe o prato desmontado e tem que preparar sua própria trouxinha de frango (com gengibre e ervas), amendoim e hortelã na folha de alface (R$ 20).

Para quem quiser experimentar o sabor vietnamita, é o momento de tentar o rolinho de camarão e ervas, embalado no papel de arroz (R$ 16) – não agrada a qualquer paladar, mas é uma aventura. Sem arriscar, o wonton chinês (trouxinha frita, recheada com camarão e salmão, R$ 18) ou as lulas empanadas (R$ 18) são boas pedidas.

Na hora de encarar os pratos principais, a situação fica mais difícil. As boas opções são tantas que merecem várias visitas. E é aqui que a mistura com os sabores nacionais aparece com mais propriedade.

O bulgogi coreano (filé grelhado) ganha acompanhamento de purê da nossa mandioca com o wasabi deles (R$ 40), enquanto o gai gorla, frango grelhado tailandês, vem embalado com um sensacional molho de coco (R$ 33). Nas saladas, não passe sem experimentar a som tam, combinação picante de papaia e camarão, que aqui recebe a companhia de manga e pupunha (R$ 32).

O menu de sobremesas também tem boas surpresas, como o cheesecake (rebatizado “de Xangai”) com gengibre (R$ 15), que vem à mesa na consistência certa, e as tradicionais bananas fritas tailandesas, com casca empanada e recheio de doce de leite, acompanhadas por uma bola de sorvete de coco (R$ 15).

Apesar de todo seu universo gastronômico, o East não se basta em mero restaurante. Sua sacada, projetada por Gilberto Elkis, combina perfeitamente com a carta de martinis, especialidade da casa. Aqui a experimentação também aparece em corajosos drinks picantes (misturando rum, suco de goiaba, hortelã e pimenta vermelha) ou mais suaves, como o de lichia e o de capim limão (R$ 16, preço médio).

E para que os especialistas em sushi não se sintam abandonados, o East recebe uma mesa exclusiva da iguaria japonesa nas noites de quinta e sexta. Mas com um cardápio tão exótico, quem vai querer peixe cru?

East
Al. Jaú, 1303, Jardins, São Paulo - SP
Tel 11-3081 1160

Falando sobre bundas

09.04.2007 @ 13:12One Comment

No caso, a minha.

Isso é a. excesso de auto-confiança ou b. falta de amor próprio?

Test drive: cuecas com enchimento
(publicado originalmente @ Chic)

Eu sempre fui um desbundado, resultado talvez da descendência portuguesa. Há quem diga que isso tem o seu charme mas, como a gente nunca gosta do que tem no espelho, eu sempre invejei quem tivesse aquele pouco mais de gordura localizada, que faz a diferença.

Então, mais que depressa, topei testar as novas cuecas com enchimento da linha Support, lançamento da Mash. Esta matéria é esperada desde 2005, quando o Chic testou uma calcinha com bumbum extra em um modelo, para ver se funcionava. Naquela época, o resultado não foi decepcionante, mas usar uma calcinha é desconforto demais para aumentar a auto-estima.

Cueca com enchimento, foto Adelaide Ivánova

Agora, depois de duas semanas de testes, no dia-a-dia da redação e em festas durante a noite, a conclusão é que uma cueca com enchimento serve apenas para isso mesmo: satisfação psicológica.

O primeiro prazer vem com o espelho. Depois de décadas convivendo com um bumbum retinho, faz bem para o ego vestir uma calça justinha e observar a nova curvatura. Autoconfiança instantânea em tecido, e ainda com a vantagem de ter uma almofadinha ambulante – com uma cueca assim, nunca mais as cadeiras duras serão desconfortáveis.

Claro que o resultado depende muito da roupa que se usa. O ideal, para que o bumbum novo passe como natural, é usar calças escuras e com tecido pesado. Evite as cores claras ou tecidos mais leves: a diferença é brutal, e todo mundo vai perceber onde acabam suas coxas e começam os enchimentos. Bermudas e shorts, nem pensar. Só vão fazer você passar vergonha.

O problema é que, diferentemente das mulheres, para os homens não parece haver grande vantagem em ter um traseiro mais bem definido. Enquanto elas ganham mais atenção com esses truques, nós passamos despercebidos. Durante todos os dias em que usei o bumbum fake, absolutamente ninguém pareceu notar a diferença. Ou seja: meu novo traseiro serviu apenas para meu próprio deleite.

Efeito contrário tem o outro modelo da linha, uma cueca com enchimento frontal. A almofadinha vertical não é tão descarada quanto os alongadores penianos, populares nas vitrines dos sex shops  - mas, ao mesmo tempo, também não parece natural.

Cueca com enchimento, foto Adelaide Ivánova

O volume pélvico é constrangedor, principalmente se usado com calças mais justas. É garantido: todo mundo nota. Mas você só vai ganhar reações de estranheza. Quando vestido sob calças mais largonas, o enchimento passa mais disfarçado – mas então, convenhamos, não vale de muita coisa. Talvez a marca devesse pensar em modelos mais modestos.

A rosa no moinho

06.04.2007 @ 17:28No Comments

Quando vi esse filme na última Mostra, passei uma hora e meia pensando na morte dalguma bezerra e não consegui sacar a excelência da coisa. Revi nesta semana e taí: direto pro topo dos grandes musicais nacionais. 

E ganha menção também pela campanha de marketing, com pessoas distribuindo rosas em botecos da cidade (alusão a “As rosas não falam”, música de Cartola), com um convite para assistir ao filme.

(Aliás, sabia que Cartola deu nome a um navio cargueiro da Petrobrás? Lá, é primo do Ataulfo Alves.)

O que eu não consigo entender é o motivo de terem distribuído mais fotos de divulgação com o Nelson Sargento (que toca no filme, vá lá) do que do próprio Cartola. Até no site oficial é assim. Vão começar a chamar Nelson de outro nome, aí quero ver.

Cartola
(publicado originalmente @ Omelete) 

Poucas vezes se viu, na história da música brasileira, figura tão fascinante quanto Angenor de Oliveira, o Cartola. Endeusado por qualquer um que conheça um pouquinho que seja do riscado, o sambista ganha agora um documentário à altura de seu nome, resultado de anos de trabalho da dupla Lírio Ferreira e Hilton Lacerda.

Cartola, foto Milton Montenegro

A veneração ao homem não é gratuita. Dono de uma vida cheia de altos e baixos, Cartola é o estereótipo daquela simplicidade quase inocente da vida no morro carioca, que não existe mais. Carregado de um lirismo que não aprendeu na escola (que não freqüentou), compôs uma série das grandes pérolas do velho samba de violão, viu sua estrela brilhar tarde demais e, ainda assim, não trocava seu conhaque com cerveja por badalação nenhuma.

A história do artista Cartola, nascido em 1908, começa nas décadas de 1920 e 30. É aí que funda a Mangueira, escola de samba com quem teve uma relação de amor e ódio, e começa a vender suas composições para baluartes da música da época – como Francisco Alves e Mário Reis – se torna amigo de Villa Lobos e Noel Rosa e é gravado por Carmen Miranda.

Sua fase mais reconhecida hoje vem do final dos anos 50 quando, depois de uma época de ostracismo, em que chegou a ser dado como morto, é encontrado por Stanislaw Ponte Preta (persona de Sérgio Porto, dos jornalistas mais influentes de então) trabalhando como lavador de carros. É então que, já casado com Dona Zica, vira personagem valioso do meio artístico, fazendo seus primeiros shows solo. Seus únicos quatro discos foram registrados entre 74 e 79, pouco antes de sua morte, em 1980.

O grande mérito de Cartola, mais do que ser um retrato fiel do compositor carioca, é se mostrar um filme tão extraordinário quanto seu personagem. A dupla não se limita a contar a história de Angenor, ponto a ponto, como um documentário comum: prefere construir um mosaico poético sobre ele, fazendo paralelos sutis à história cultural e política da época.

Daí que, a partir das cenas iniciais sobre o enterro de Cartola, ilustram sua vida com imagens do cinema nacional (referenciando, por exemplo, Júlio Bressane e Aviso aos navegantes, chanchada com Oscarito) e trechos ficcionais. A montagem é um dos grandes destaques do documentário, ao lado da sensacional pesquisa de arquivo, que resgata imagens raras do músico (em programas de auditório, cantando ao lado de Chico Buarque, material jornalístico ou em momentos pessoais, ao lado do pai). Os musicais e depoimentos recuperados também são preciosos, como as imagens de Madame Satã, Donga, Pixinguinha e Elza Soares.

A carga lírica acaba por comprometer um pouco da necessidade factual do documentário, com alguns aspectos da vida de Cartola analisados superficialmente ou ignorados pelo recorte final – a origem do apelido, seus programas de rádio, os conflitos que resultaram no seu afastamento da Mangueira ou os anos em que passou longe de tudo (resumidos pela tela enegrecida, embalada pela voz de Elizeth Cardoso). Defeitos que poderiam ser resolvidos com alguns minutos a mais de filme.

Mas nada disso tira o brilho da produção. Cartola não é (e nem se propõe a ser) um retrato definitivo sobre o sambista mais querido do Brasil. Já se basta em prestar uma bela homenagem a Angenor, à beira da marca dos seus 100 anos de nascimento. E se gerar uma curiosidade maior sobre o homem e sua obra, já cumpriu muito bem sua missão.

Placebando a situação, II

03.04.2007 @ 03:09No Comments

Sem viadagem, Dercy.

Placebo em São Paulo
(publicado originalmente @ Omelete)

Por favor, um brinde. Os anos 90 estão enterrados, Brian Molko já passou dos 30 anos e desistiu de bancar a cria andrógina de David Bowie. Desmontou o espírito drag e subiu ao palco do Credicard Hall, na semana passada, como um personagem gay do seriado inglês The Office – os olhos continuam bem maquiados, mas a camisa era mais comportada.

Placebo @ SP, foto Natalie Gunji

É sempre chato quando uma banda teima em crescer forçosamente, buscando a tal “maturidade”. Mas no caso do Placebo, isso só ajuda a reforçar sua imagem de banda ideal. Sem exageros: já nas primeiras porradas de bumbo em “Infra-red” (do último álbum, Meds, lançado em 2006), abrindo o show, deu para perceber que é merecido o seu posto de “grupo da vida” de toda uma geração que preenchia o lugar.

O que aconteceu é que, ao vivo, os ingleses deixaram para lá as alegorias glam e pisaram forte nas competências roqueiras que exibiam desde o primeiro disco, há 11 anos. Não é qualquer banda que consegue colocar três guitarras no palco e se fazer levar a sério.

Ponto para eles!

E Molko – mesmo sem a persona andrógina que arrebanhou uma legião de rapazes (e algumas meninas) durante a década passada – é um showman dos mais espertos, daqueles que carregam a platéia sem apelar para coreografias, apesar de suas composições lamuriosas.

Mais um ponto!

Meds deu base à primeira parte da noite, com suas faixas aditivadas pela postura rocker atual da banda. Mas, apesar da empolgação do público durante as primeiras músicas (com as boas “Space monkeys” e “Because I want you”), o show só esquentou mesmo a partir do meio, com a sucessão de hits, de “Every you every me” e “Without you I’m nothing” a “Bitter end”.

O bis não demorou muito para acontecer, emendando “Running up that hill” (cover do clásssico de Kate Bush), “Taste in men” e “Twenty years”. E na lata, assim como começou acabou. Sem enrolação, sem bichice, como um bom show de rock tem que acontecer. Assim, dá até para perdoar o delineador todo borrado.