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Assunto: @ Omelete

Iê Iê Iê vitaminado

09.01.2007 @ 23:48No Comments

Só pra guardar, já que vou falar do cara. Texto velho, saca?

(publicado originalmente @ Omelete @ 02.2005)

Primeira grande conquista do roque nacional, a Jovem Guarda ganha ecos até hoje na música independente. Se Roberto Carlos largou o estilo para investir na sua verve romântica que tanto agrada as mães do Brasil, ele foi resgatado pelo indie para ser desenvolvido e melhorado nos últimos anos - notadamente no tal rock gaúcho, pelas mãos de Frank Jorge, Wander Wildner e tantos outros.

Mas esse revival não é limitado a uma órbita bairrista. Um lançamento recente trouxe novamente o Iê Iê Iê ao Rio de Janeiro. De apelido bizarro e camisas sessentistas, o carioca André Paixão - ou Nervoso - rumina essa nova Jovem Guarda no ótimo Saudade das minhas lembranças.

Nervoso, Saudade das minhas lembranças

(more…)

Aquele é o Axl Rose?

12.12.2006 @ 23:3210 Comments

Eu tenho medo de roqueiros velhos.

The Cult em São Paulo
(publicado originalmente @ Omelete)

O maior pesadelo de um roqueiro é envelhecer, é o que dizem. Neste ponto, descontando-se Mick Jagger, só há dois caminhos: ou se adota uma postura mais cool, condizente com a idade, ou se enfia o pé na lama de vez, tornando-se uma caricatura falastrona de si mesmo.

Nosso bom e velho Ian Astbury, pelo visto, resolveu ir pelo segundo caminho. Com quase cinqüenta anos na testa, o inglês voltou ao Brasil com sua banda The Cult, reunida mais uma vez para uma turnê que atravessou 2006. É a alegria do fiel público dos anos 80, principalmente aquele que não tem mais saco de acompanhar o “rock de hoje em dia”.

The Cult, foto flickr.com/elenac

No palco, com uma bandana quase cobrindo os olhos e um figurino que não disfarçava a pancinha, Astbury mostrou toda sua postura de adolescente tardio, dando de ombros para o bom gosto e a vergonha alheia. Pirofagista às avessas, passou o show inteiro cuspindo água para todos os lados; se confundiu com o fio do microfone e atingiu seu rosto com o próprio pandeiro; fez piadinhas sem graça; sambou ao som de “olê olê olá” e se esforçou em um português ensaiadíssimo (“Obrigado, de nada!”, não cansava de repetir). Um picadeiro completo.

Tudo, talvez, para distrair sua falta de forma. Astbury não é mais aquele cara que encantou marmanjões e menininhas há tanto tempo. Sua voz está longe daquela época e, para piorar, ele prefere berrar ao microfone a cantar.

Para sua sorte, as músicas do Cult ainda sobrevivem, graças à afiada banda que reuniu e ao carisma das cordas do guitarrista Billy Duffy. O setlist seguiu o esquema “best of”, dando especial atenção à trinca de ouro oitentista do grupo - Love (1985), Electric (1987) e Sonic temple (1989).

Começaram já com “Lil’devil” e “Sweet soul sister”, coisa que nem a postura axlroseana de Astbury conseguiu detonar. O primeiro ápice aconteceu com “Revolution”, que fez surgir alguns tímidos isqueiros levantados pelo lugar. No meio do show, um momento acústico surpresa causou controvérsia, com o mega-hit “Edie (Ciao baby)”, acompanhado num violão de dar arrepios de tão canhestro. De volta aos amplificadores, desceram por “Fire woman”, “Rise”, “Wild flower”.

No final, a banda emendou “She sells sanctuary” e “Love removal machine”. Mais uma cusparada aqui, uma sambadinha ali, o público esvaziava rapidamente o lugar (talvez irritado pela demora de quase 15 minutos antes do bis) e o vocalista erguia uma taça de qualquer coisa, agradecido e feliz da vida. De nada, seu Astbury.

Best of

01.12.2006 @ 21:28No Comments

Uns milhares de toques aí (meio atrasados, eu sei) sobre o grande festival do ano. Ninguém se move, ninguém se machuca. 

Nokia Trends 2006

“Se a chuva parasse”, dizia o refrão da primeira música que o Digitaria tocou no palco principal do Nokia Trends, abrindo o festival. Era esse também o pensamento do público que enfrentava a garoa torrencial que atingiu São Paulo durante toda a noite de sábado, 25.11, para chegar ao Anhembi.

Dando o chute inicial do evento, pontualmente às dez da noite, o quarteto mineiro mostrou o valor já reconhecido em sua recente turnê européia, sob as bênçãos do clã alemão da Gigolo Records. O electro punk do grupo funciona cada vez melhor ao vivo, apesar de alguns exageros performáticos do vocalista Fabiano, que esteve à beira de arrebentar sua bateria eletrônica na cabeça. O Digitaria acendeu a pequena audiência, com uma apresentação muito mais redonda do que a do Campari Rock, em abril. Prova cabal de que algumas bandas funcionam melhor sob um teto real.

Se o grupo brasileiro mostrou crescimento, a organização do Nokia Trends provou que ainda há quem saiba montar shows decentes por aqui. Conseguiram transformar o traumático Anhembi em um ambiente aconchegante e organizado, ganhando o milagre de não formar filas nos banheiros ou nos bares, começando os shows na hora marcada (o único atraso, com Ladytron, não chegou aos 15 minutos) e reunindo uma audiência divertida e sem afetação. O NT leva, de longe, o título de melhor festival de São Paulo em 2006, ano tão recheado de erros estúpidos de infra-estrutura, picuinhas políticas e público equivocado.

No palco, as novas velhas bandas

Quando o Soulwax desceu pela primeira vez ao Brasil, no Tim Festival de 2004, não era mais que uma banda ordinária de rock, projeto paralelo dos superestimados 2manyDJs. A apresentação xinfrim daquela época, porém, sumiu da memória no momento em que esta nova encarnação entrou no palco para o show mais surpreendente da noite.

Rebatizados como Soulwax Nite Versions, os instrumentos acústicos foram trocados por pilhas e pilhas de sintetizadores. Só restou uma guitarra aqui e ali, além do incansável baterista, responsável pelo ritmo da apresentação.

Soulwax Nite Versions @ Nokia Trends, foto divulgação

Fundamentando o não-movimento da neu rave (“are you ready to rave?” foi uma das poucas frases faladas pelo vocalista Stephen Dewaele), os belgas reavivaram sua performance com as bases que fizeram sucesso na sua persona DJ. O show do SNV é um set ao vivo, sem intervalo entre as músicas, misturando hits próprios (“Miserable girl”, “E talking”) a rápidas viagens por faixas alheias, de Lilly Allen a Tiga. Pop, techno, electro, punk, tudo fundido num caldeirão único. Foi, no mínimo, atordoante.

Tudo ao contrário do Bravery, que veio para cá com um bem-sucedido álbum de estréia nas costas e recém-saídos da finalização do segundo disco em estúdio. Não dá pra dizer que a banda não é esforçada ao vivo. Talvez seja esforçada até demais, beirando o manual do rockstar padrão. O vocalista Sam Endicott, principalmente, seguiu todas as regras, fazendo pose, puxando o saco da cidade (e das mulheres locais) e socando sua guitarra na bateria.

The Bravery @ Nokia Trends, foto divulgação

Mas faltou convencimento para além das entrelinhas, e a banda não empolgou como se achava. E a semelhança com o Cure, em alguns momentos, não ajudou. Quem não era fã, esvaziou a pista para conferir os 2manyDJs na área eletrônica do festival. O show só serviu mesmo para conferir alguns bons hits (“Fearless”, “Na honest mistake”) e algumas das novas, tocadas pela primeira vez, como “Every word from your mouth is a knife in my ear” e a quase country “Bad sun”, tocada com um estiloso violão listrado. No finalzinho, uma cover de “Don’t changes”, do INXS, surpreendeu (quem ainda ouve INXS hoje em dia?). Mas parou por aí.

O forno elétrico e a vingança dos nerds

Com sua escalação corajosa, sem um headliner massificado, o Nokia Trends confirmou aquela regra que todo mundo já conhecia mas não tinha culhões para provar: a maciça adoção do público brasileiro por bandas de pouca expressão no mainstream. Caso claro do fervor encontrado pela canadense Hot Hot Heat e a estadunidense We Are The Scientists – a primeira, velha conhecida de quem acompanha o rock indie mundo afora; a segunda, com seu hype recém criado.

Foi quase um show duplo. Na primeira parte o HHH, liderado pelos gritos do inabalável vocalista Steve Bays, esquentou o lugar (com o perdão do trocadilho óbvio). O repertório foi quase irmanamente dividido entre Make up the breakdown (o excelente debute, de 2002) e Elevator (último álbum, de 2005). De “Not, not now” ao hit “Bandages”, passando por “Goodnight goodnight” e a singela “You owe me an IOU”, todas as músicas foram acompanhadas pelo público. Nada mal para uma banda que nem tem seus discos lançados por aqui.

Hot Hot Heat @ Nokia Trends, foto divulgação

Depois da pancada canadense, o WAS transformou o palco do Nokia em um talk show nerd. Falastrões e verborrágicos, o vocalista Keith Murray e o baixista Chris Cain passaram todo o tempo falando bobagem, sacaneando o Hot Hot Heat e um ao outro. Mas era quando resolviam tocar de verdade que o grupo provava o crescente falatório ao seu redor.

We Are Scientists @ Nokia Trends, foto flickr.com/daigooliva

O efeito coro dos canandenses continuou à toda, com o público acompanhando as músicas estranhas da banda, todas importadas do seu único álbum, With love and squalor – “Lousy reputation”, “It’s a hit”, “The scene is dead”. Na sensacional “Nobody moves, nobody get hurt”, a banda recebeu a participação de Steve Bays em um cowbell (pagando a ajuda do baterista Michael Tapper, que tinha tocado com o HHH em “Talk to me, dance with me”).

Ao final, com “The great scape”, Murray largou sua guitarra que teimava em não funcionar e se jogou pela segunda vez sobre a platéia. Voltou agradecido, elogiando o mundo e prometendo voltar em breve – coisas que Bays também falou. As juras de amor continuariam noite adentro, com as duas bandas explorando São Paulo. É esperar pra ver ate onde vão.

Tudo passa

Você sabe que tem alguma coisa estranha acontecendo quando até a fumaça do palco resolve subir em anéis. Foi esse o efeito do Ladytron, que encerrou o Nokia Trends, acabando de vez com a novela de sua passagem pelo Brasil, que atravessou todo 2006 (a banda chegou a ter duas datas marcadas, como atração do Sonora, ex-Curitiba Rock Festival).

Ao vivo, o electropop do grupo de Liverpool funciona como um sonho – não à toa há quem os rotule como ‘dream pop’. E essa sensação não atinge só aos fãs, o buraco é mais embaixo. Esforçada, com seus sintetizadores de estimação, a banda recria no palco todas as ambiências eletrônicas produzidas em estúdio. A estratégia encorpa as composições, criando um estofo a mais para as letras na voz singela de Mira Aroyo.

Ladytron @ Nokia Trends, foto divulgação

Eles entraram em desvantagem, pelo avançado da hora, depois da bordoada das primeiras bandas e a amornada do Bravery. O que salvou a banda, além da sua aura mítica, foi o poder das músicas. O repertório baseado no último álbum, Witching hour, abriu espaço para músicas mais antigas e até a surpresa “Send me a postcard”, cover da holandesa Shocking blue.

O ponto alto, como não poderia deixar de ser, ficou por conta dos hits “Seventeen” e “He took her to a movie”. O último single, “Destroy everything you touch”, encerrou a apresentação. A platéia órfã não arredou o pé, exigindo mais um bis, que não veio. Recebeu os membros da banda, com o palco sendo desmontado ao fundo, acenando como se dissessem “isso aí, galera, o sonho acabou”.

A essa hora, o sol já despontara lá fora. E sem chuva, desta vez.

(publicado @ Omelete)

Segura o frango e vem com a gente

25.11.2006 @ 02:17No Comments

Este post e o anterior só serve pra arquivar as críticas de Party monster, referência no próximo.

Acho que eu sou a única pessoa que gosta deste filme.

Party monster
(publicado originalmente @ Omelete @ 03.2004)

No começo dos anos 90, Macaulay Culkin era o estereótipo da criança fofinha. Como personagem principal dos dois primeiros Esqueceram de mim (Home alone), o ator-mirim fazia suspirar de paixão a família americana inteira. Tornando-se rapidamente a criança mais bem paga do mundo, o estrelato de Macaulay não durou nem cinco anos. Entre brigas com a família por dinheiro, pequenos escândalos e um casamento precoce, o ator afastou-se de vez da sua carreira. Até agora.

Party monster

Um pouco antes de Esqueceram de mim ser produzido, um mundinho paralelo se desenvolvia em Nova York. Era o final da década de 80 e a cidade já fervia com a ainda iniciante cena clubber. Rejeitando os valores dos yuppies de Wall Street, os clubbers pregavam a diversão noturna, se vestiam de maneira extravagante e não levavam a vida muito a sério.

É nesse cenário que Party monster (2003, de Fenton Bailey e Randy Barbato) se desenvolve. O filme conta a história real de Michael Alig (Culkin), figurinha lendária da vida noturna nova-iorquina. O promoter ficou famoso na época pelas roupas únicas, pela personalidade infantilóide e por ser dono das festas mais disputadas da cidade. O momento mais famoso da sua biografia, porém, é quando ele confessa publicamente o assassinato de um amigo traficante. A confissão o leva à cadeia, em 96, e aumenta seu poder de mito.

Alig já foi tema de um documentário produzido em 1998 pelos mesmos diretores, também batizado de Party monster. Este novo filme, porém, é baseado no livro Disco bloodbath, escrito por James St. James, outro personagem central da trama, melhor amigo de Alig. Interpretado por Seth Green, St. James é quem mantém o fio condutor da história, além de agir como o contraponto são - mas nem tanto - das pirações do amigo.

O deboche característico do ambiente clubber influencia boa parte do filme - das atuações à montagem, passando pelo nonsense cronológico e visual. Também por isso, Party monster acaba sofrendo do mesmo defeito de A festa nunca termina (24 hour party people, de Michael Winterbottom) - filme/documentário que conta a história da Madchester: é um filme razoavelmente divertido, mas apenas para o seu público alvo, que está inserido na cena clubber e na rotina da vida noturna e nos exageros do mundinho gay. Fora do contexto, fica complicado se divertir e entender a cabeça de várias bichinhas inconseqüentes com cocaína até as orelhas.

O ponto alto do filme, além da trilha sonora, é o próprio Seth Green que, apesar de não ser o personagem principal da trama, acabou se mostrando a melhor atuação do filme - dando um chega pra lá em Chloë Sevigny, que nem é tão medíocre assim. Vale a pena também a participação especial do bizarríssimo Marilyn Manson, que “interpreta” Christina, a drag queen mais chapada da história do cinema.

De qualquer forma, tudo no filme acabou eclipsado pelo “grande” retorno de Macaulay Culkin às telas, depois de quase dez anos de ausência. E ele levou a sério o estigma. A sério demais. A ponto de exagerar na afetação homossexual do personagem. E o pensamento que fica, ao final dos créditos, é que nada mudou. Macaulay continua sendo um ótimo ator-mirim, interpretando o mesmo menininho barrigudo e sapeca que anda pela casa de cueca.

Party monster: a trilha sonora

25.11.2006 @ 02:14No Comments

Party monster é um filme-documentário que retrata a ascensão e queda do super-promoter Michael Alig durante a cena clubber do fim da década de 80/começo da década de 90. Logo, o mais óbvio é que a trilha sonora seja uma cuidadosa compilação do melhor e mais marcante que apareceu nessa época, certo?

Certo. E errado.

Party monster, trilha sonora

Contrariando todas as expectativas, o CD não é lá um grande documento sobre o que foi realmente trilha das festas promovidas por Alig. A época, que ocupa menos da metade do CD, está representada por sucessos que chegaram a tocar até nas FMs brasileiras. “Go”, hit do grupo Tones on tail, é um exemplo.

Ainda dos anos 80, podemos destacar a piração teatral de Nina Hagen em “New York, New York”; “Two of hearts” da Stacey Q, cantorete à la Madonna de um hit só, e a ótima “How to be a millionaire”, synth-pop do ABC, grupo famosíssimo na época e que tem uma sobrevida até hoje.

No resto do CD - surpresa! - o hype aparece. Com toda essa onda de revival que invadiu a música, nada mais atual na produção eletrônica do que os anos 80. Ou seja, o tão infame electroclash. Artistas moderninhos fazendo músicas com cheiro de velhas. Tem de WIT (com a lentinha “Inside out”) a Scissor Sisters (e a chata “It can’t come quickly enough”), passando pela manjada “Frank Sinatra”, de Miss Kittin e The Hacker.

“You’re my disco”, do Waldorf, é a mais divertida das novas e, assim como Ladytron (”Seventeen”), merece atenção. Felix da Housecat marca presença com o remix da música “cantada” pelo elenco durante o filme (”Money, success, fame, glamour”). E Marilyn Manson estendeu sua participação especial à trilha, gravando com seu alter-ego Christina a música “The la la song”, divertida e só.

A seleção das faixas parece se preocupar mais em combinar o título e as letras das músicas com o contexto do filme do que em recriar qualquer ambiente. Mas, apesar de mediana, a compilação funciona. Principalmente pra quem sofre de nostalgia.

(publicado originalmente @ Omelete @ 03.2004)