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Assunto: @ Omelete

Placebando a situação, II

03.04.2007 @ 03:09No Comments

Sem viadagem, Dercy.

Placebo em São Paulo
(publicado originalmente @ Omelete)

Por favor, um brinde. Os anos 90 estão enterrados, Brian Molko já passou dos 30 anos e desistiu de bancar a cria andrógina de David Bowie. Desmontou o espírito drag e subiu ao palco do Credicard Hall, na semana passada, como um personagem gay do seriado inglês The Office – os olhos continuam bem maquiados, mas a camisa era mais comportada.

Placebo @ SP, foto Natalie Gunji

É sempre chato quando uma banda teima em crescer forçosamente, buscando a tal “maturidade”. Mas no caso do Placebo, isso só ajuda a reforçar sua imagem de banda ideal. Sem exageros: já nas primeiras porradas de bumbo em “Infra-red” (do último álbum, Meds, lançado em 2006), abrindo o show, deu para perceber que é merecido o seu posto de “grupo da vida” de toda uma geração que preenchia o lugar.

O que aconteceu é que, ao vivo, os ingleses deixaram para lá as alegorias glam e pisaram forte nas competências roqueiras que exibiam desde o primeiro disco, há 11 anos. Não é qualquer banda que consegue colocar três guitarras no palco e se fazer levar a sério.

Ponto para eles!

E Molko – mesmo sem a persona andrógina que arrebanhou uma legião de rapazes (e algumas meninas) durante a década passada – é um showman dos mais espertos, daqueles que carregam a platéia sem apelar para coreografias, apesar de suas composições lamuriosas.

Mais um ponto!

Meds deu base à primeira parte da noite, com suas faixas aditivadas pela postura rocker atual da banda. Mas, apesar da empolgação do público durante as primeiras músicas (com as boas “Space monkeys” e “Because I want you”), o show só esquentou mesmo a partir do meio, com a sucessão de hits, de “Every you every me” e “Without you I’m nothing” a “Bitter end”.

O bis não demorou muito para acontecer, emendando “Running up that hill” (cover do clásssico de Kate Bush), “Taste in men” e “Twenty years”. E na lata, assim como começou acabou. Sem enrolação, sem bichice, como um bom show de rock tem que acontecer. Assim, dá até para perdoar o delineador todo borrado.

Pianíssimo

01.03.2007 @ 21:17One Comment

Admito que não ouvia Coldplay há anos. Andei tirando o pó dos discos nestes dias. Os dois primeiros, né? Que o terceiro…

Bateu até uma nostalgiazinha da época que “Yellow” era novidade no Soulseek (Napster? Audiogalaxy? Não lembro).

Coldplay em São Paulo
(publicado originalmente @ Omelete)

O que as pessoas parecem esquecer, ao colocar tão no alto essa última leva de bandas, é que elas estão todas ainda procurando seu caminho – não só dentro do rock, mas na sua própria estética.

É o caso claro do Coldplay que encerrou nesta quarta-feira (28/02), uma temporada esgotadíssima de três dias no Via Funchal, em São Paulo. Apesar da sua clara preferência por uma canção melódica, carregada no piano e no falsete de Chris Martin – que, gostem ou não, influenciou uma segunda geração de nomes – os ingleses estão perdidos nas possibilidades que criaram. Como o próprio vocalista definiu, são uma banda grande mas não ainda uma grande banda. Note a diferença.

Na sua primeira viagem até o Brasil (em 2003, também no Via Funchal), o Coldplay vinha carregado de bons presságios, graças a uma dupla estréia com bons discos: Parachutes, de 2000, e A rush of blood to the head, de 2002. Agora, os rapazes chegaram com a moral azedada, encerrando na América Latina a turnê de quase dois anos de X&Y, o sem graça terceiro álbum.

O histórico de qualidade da discografia do Coldplay se refletiu bem no começo deste terceiro show brasileiro. “Square one”, do último álbum, inaugurou a banda no palco de forma morna, abrindo espaço para os hits “Politik” (e os estrobos contra a platéia contrastando com o verso “open up your eyes”) e “Yellow”, respectivamente do segundo e primeiro discos. É como um termômetro que vai do negativo para o fervente, em três etapas.

Coldplay @ São Paulo, foto flickr/daigooliva

A diferença não é por acaso. As melhores músicas estão isoladas nos dois filhos primogênitos dos londrinos. As importadas de X&Y (com as honrosas exceções de “Speed of sound” e “Talk”) acabam aprisionadas na sua vontade megalômana, embolando o jogo melódico do grupo. Vide o momento messiânico de “Fix you”, última música do bis, com o vocalista teatralizando com um globo de luz nas mãos – o ápice construído só serviu para deixar uma imagem ruim no fechar das cortinas.

Mas, à parte o caminho perdido, o Coldplay é cada vez mais uma das bandas mais poderosas de sua geração. Afiados nos seus quase dez anos de estrada, o guitarrista Jonny Buckland, o baixista Guy Berryman e o baterista Will Champion, ainda fazem seus instrumentos conversarem entre si como se estivessem em casa. E, claro, deixam todo o jogo de luzes para Chris Martin.

Com toda a sua sensualidade nerd e suas dancinhas bizarras ao piano, como um Linus que trocou o cobertor pela cafeína, Martin assume seu papel de (ele que me desculpe) Bono ressuscitado. Carrega a platéia facilmente – mesmo com seu gênio excêntrico, tipicamente inglês, que o faz pedir silêncio entre as vaias que ganhou ao fazer uma piada sobre futebol.

Mas um show do Coldplay é feito de humores. O bom humor da banda tem que combinar com o da platéia, da casa, dos seguranças, da conjunção astral. Nesta terceira noite, a soma foi perfeita.

As músicas novas não apareceram, é verdade (“Temos medo da Internet”, eles disseram mais cedo.). Mas a pequena platéia que estava ali (e que pagou caro para ficar em pé entre as cadeiras) não ligou muito. Sobrou tempo até para a banda se transformar em mariachis (três violões e uma gaita, emendando “Til kingdom come” e a cover “Love me tender”) e Martin cantarolar um dispensável scat de “Garota de Ipanema”.

É esperar que esse humor afinado continue nos trabalhos de estúdio, ao lado de Brian Eno, para um quarto disco que faça jus à reputação da banda. Ou só vai sobrar nostalgia.

Omelete, nas bancas

22.02.2007 @ 18:29No Comments

Eu achava que era segredo mas, pelo visto, não é mais. O Omelete, meu site nacional preferido (principalmente por me agüentar), gerou um filhote em papel. Publicada em parceria com a Mythos, a revista sai na primeira semana de março em edição experimental. Detalhes (e capa, com Rodrigo Santoro travestido) aqui.

Tem texto meu também, falando sobre Maria Antonieta, mas isso é só detalhe.

Black is beautiful

16.02.2007 @ 17:40No Comments

Não gosta de musicais? Passe longe, que esse é genuíno.
Não gosta da Beyoncé? Não esquenta, você nem vai perceber que ela existe.
Não gosta das Supremes? Hein? 

Dreamgirls - Em busca de um sonho
(publicado originalmente @ Omelete) 

Seria muito fácil falar mal de Dreamgirls – Em busca de um sonho (Dreamgirls, 2007). Dizer que a produção suntuosa esconde um enredo que não aprofunda os sentimentos dos personagens. Que, na meia hora final, a história se perde. Ou cuspir que Beyoncé Knowles, como atriz dramática, é um ótimo corpinho.

Mas pra que estragar a festa? Dreamgirls não quer provar nenhum tipo de arte, e não precisa ser tratado como tal. É diversão e ponto.

Dreamgirls

Baseado no musical homônimo, que estreou na Broadway em 1981, o filme é uma bela revisão da música negra estadunidense de vinte anos antes, daquele momento crucial em que o cinismo tomou conta da música e resultou no cenário de hoje, com rappers movidos a peso de ouro e divas R&B insossas construídas com massa de modelar.

O enredo, importado da peça, adapta em um trio fictício a história de Diana Ross e as Supremes. O caminho é praticamente o mesmo: garotas de Detroit descobertas pela recém-inagurada gravadora Motown fazem sucesso com o ingênuo doo-wop da época. Logo depois, a líder que canta bem é trocada pela integrante mais bonita para que o grupo emplaque nas paradas pop. Daí vem a decadência, com o som do trio se moldando à moda musical da época, do soul à disco music da década de 70.

O papel da gostosa com voz sem graça, é claro, caiu no colo de Beyoncé. A ex-Destiny’s Child, apesar de ser a musa do cartaz, é a estrela mais apagada do elenco. Não é a toa que o filme perde boa parte da graça quando ela se torna a personagem principal. Beyoncé encarna com propriedade o novo momento da música negra, pasteurizado e chato, do qual é o expoente máximo hoje.

A concorrência da cantora-agora-atriz, que inclui Jamie Foxx e Danny Glover, não a ajuda. A novata Jennifer Hudson (que interpreta Effie, a gordinha que canta de verdade) rouba a cena assim que abre a boca. E Eddie Murphy alcança o grande papel dramático da sua carreira com seu cantor decadente, uma mistura de James Brown com Marvin Gaye.

Dreamgirls tem outros tantos pontos fortes além do elenco, como a direção de arte sensacional e os figurinos impecáveis. Para quem gosta das Supremes, vale prestar atenção para achar as dezenas de referências escondidas, nos vestidos das moças e nas capas dos discos. E o diretor Bill Condon, escolado depois de ter preparado o roteiro de Chicago (2002), consegue transferir o musical da Broadway com forca suficiente para a tela, não deixando espaço para o espectador pensar muito na história, costurada com as músicas possantes da trilha sonora.

Pelo menos é distração o bastante para diminuir a estrela superestimada de Beyoncé, uma mera coadjuvante dessa fantasia black, capaz de fazer todo mundo sair cantarolando feliz do cinema. Como nos bons e velhos tempos.

O maior espetáculo da Terra

29.01.2007 @ 17:514 Comments

O título é batiiiido, mas é de coração. E sem fotos, que já está tudo no outro post.

Mutantes em São Paulo
(publicado originalmente @ Omelete)

Começo de noite em São Paulo, eles entram marchando no palco. Um Napoleão, um corsário e um padre, com fogos pipocando no fundo de cena, prontos para enfrentar o jardim elétrico do Parque da Independência, como se trinta e tantos anos fossem ontem, como se nada tivesse acontecido. Ah, baby, há quanto tempo. Os Mutantes estão ali, sorrindo e pulando, ante uma platéia que cresceu ouvindo sem saber os seus filhotes pelo mundo.

Certas coisas só se acredita vendo. Mesmo com as notícias de shows pela Europa e EUA, mesmo com um DVD recém-lançado, não me leve a mal, as provas não convencem. Ali era o verdadeiro retorno da verdadeira banda de rock brasileiro. Algo só comparável ao retorno dos Beatles – mas, pena para os ingleses, os nossos estão bem vivos.

A situação, num improvável túnel do tempo, remete ao começo dos anos 70. Rita Lee acabou de abandonar os microfones, mas foi substituída e a banda, apesar de algumas rugas aqui e ali, toca a sua boa vida. Uma fase chata progressiva? Brigas, acidentes, fofoquinhas? Vê, vê que tudo mudou. Está tudo bem, tudo bom.

O bom humor era patente ali, mesmo antes das risadas tresloucadas de “Dom Quixote”, a primeira música. Ninguém lembrava sequer do aniversário da cidade. Pra que? Estavam todos ali para ver Sérgio Dias empunhar sua velha guitarra, Arnaldo Baptista sentar-se sob seus teclados e Dinho Leme retomar as baquetas, nosso presente de ano novo. Ah, bicho, não chore ainda não. A coisa toda está só começando.

O show seguiu exatamente o mesmo setlist de 21 músicas do DVD, gravado no primeiro show em Londres, em 2006. Um difícil best of das grandes faixas mutantes. A vantagem é ignorar as chatices do registro, como as legendas erradas, o som dessincronizado ou as versões em inglês para gringo ver.

E se naquela época os Mutantes entraram no palco com um mês de ensaio corrido, aqui eles chegam louvados por meses de turnê pelos EUA. Mas não vêm afiados em tecnices, e se jogam no calor do momento. A quentura que faz Sérgio errar notas ou a letra de “Balada do louco”. Desbunde é emoção ou o quê?

A banda não é mais aquela, é verdade, e conta com o aparo de um grupo de apoio de sensacionais instrumentistas, mais dois backing vocals. Mas isso não é um demérito e torna toda a bagunça dos arranjos mais consistente e interessante.

E está tudo ali, como deveria ser, principalmente entre os dois irmãos geniais. Sérgio liga tudo com sua veia de maestro e mostra, na guitarra ou no violão, que não está entre os grandes guitar heroes brasileiros à toa. E Arnaldo, com seu jeito terno meio desligado, conquista qualquer um – o arrepio foi inevitável nos seus vocais solos de “Cantor de mambo” e “Dia 36”.

O fator delicado seria Zélia Duncan, recrutada para ocupar o espaço de Rita Lee. A vocalista original só apareceu nas capas dos livros e discos que os fãs empunhavam no lugar e – duro dizer isso – não fez muita falta. Zélia se provou a escolha perfeita para a vaga. Esperta, ficou no seu lugar de coadjuvante da glória, glória alheia. Não se intimidou com a missão e, ao mesmo tempo, não tentou puxar a estrela para si. Sua voz grave também não foi um problema, graças à ajuda preciosa da backing vocal. A moça é cantora versátil e vê-se que treinou a garganta para estar ali – preste atenção à sua performance de “Fuga n° II” para entender. Esquece, não pensa mais. Ela está onde deve.

Outro momento emocionante foi a participação de Tom Zé, que abriu a noite ao lado da Nação Zumbi. Tropicalismo na veia, ele veio e cantou suas duas canções “Dois mil e um” e “Qualquer bobagem” – a única que não está no DVD, em dueto torto com Arnaldo. Só faltou mesmo uma homenagem ao recém-falecido maestro Rogério Duprat, tão importante para a banda, pelo menos em “Panis et circenses”.

Como não podia deixar de ser, os Mutantes conquistaram as tantas mil pessoas que lotaram as margens do Ipiranga, finalmente retomando o seu lugar devido. Tanto que voltaram para dois bis, com outra chance de Sérgio errar novamente “Balada do louco”.

E quer saber? Nunca a letra dessa música fez tanto sentido. Brrlll.