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Da vanguarda brasileira


Friday, August 25, 2006

Mais um documentário brasileiro que estréia nesta semana. Desta vez o assunto é Gilberto Mendes, compositor genial que ninguém conhece. Mas devia.

A odisséia musical de Gilberto Mendes
(publicado originalmente @ Omelete, republicado @ Bala)

“Música nova: procura de uma linguagem direta, utilizando os vários aspectos da realidade (física, fisiológica, psicológica, social, política, cultural) em que a máquina está incluída. Extensão ao mundo objetivo do processo criativo (indeterminação, inclusão de elementos ‘alea’, acaso controlado)”.

Esse é um pequeno trecho do Manifesto Música Nova, publicado em 1963 e assinado por um grupo de maestros e compositores essenciais à cultura nacional moderna, como Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Willy Correia de Oliveira. Neste grupo estava também o criador santista Gilberto Mendes, tema central do filme que carrega seu nome.

Street blogs, foto Face Hunter

Mendes, hoje com mais de 50 anos de carreira, é uma encarnação da vanguarda brasileira. Aluno de Stockhausen, começou suas composições de destaque ao lado dos poetas concretos (Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari), partindo do movimento serialista para construir uma identidade própria, pervertendo a música clássica com elementos estranhos a ela (como a própria eletrônica, a performance teatral ou as construções aleatórias) e ganhando gigantesco respeito por quem acompanha o mundo da música de alto repertório.

Além de ser uma homenagem ao compositor, A odisséia musical de Gilberto Mendes tem a missão complicada de explicar esse universo a toda uma geração que não convive com agitações vanguardistas, tendo contato apenas com uma produção que sempre remói algum elemento do passado, e relega toda essa mitologia a um público ínfimo.

Baseado no excelente livro de mesmo nome, fruto da tese de Mendes sobre sua própria carreira e há muito tempo fora das prateleiras, o filme adota uma linguagem didática. A personagem principal é a neta do compositor, que costura a busca do documentário pela compreensão da figura do avô. Daí seguem vídeos de arquivo com apresentações, mesclados a depoimentos de amigos e entusiastas da obra e as deliciosas memórias do músico – que, de sisudo não tem nada.

Coisas como “vanguarda” e “alto repertório” realmente assustam a platéia leiga. Mas A odisséia serve para desvendar uma personalidade que deveria ser mais digerida pela cultura nacional. Para além de mero compositor, Gilberto Mendes é potencialmente pop, assim como sua obra. Suas composições fogem do simples instrumentalismo enfadonho. Vide “O último tango em Vila Parisi”, por exemplo, onde ele choca por colocar o maestro dançando um tango minimalista com uma das violinistas. Ou “Santos footbal music”, que depende da interação da platéia para transformar a câmara em um estádio de futebol. Ou ainda “Beba Coca-Cola”, construído sobre poema de Décio Pignatari, uma de suas peças mais famosas.

São apenas rápidos exemplos de uma grande carreira, empoeirada pelo preconceito e pela falta de atenção maciça. Uma carreira que faria muito bem à produção musical do país. Afinal, olhar para o próprio umbigo, às vezes, faz bem.

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