Só pra guardar, já que vou falar do cara. Texto velho, saca?
(publicado originalmente @ Omelete @ 02.2005)
Primeira grande conquista do roque nacional, a Jovem Guarda ganha ecos até hoje na música independente. Se Roberto Carlos largou o estilo para investir na sua verve romântica que tanto agrada as mães do Brasil, ele foi resgatado pelo indie para ser desenvolvido e melhorado nos últimos anos - notadamente no tal rock gaúcho, pelas mãos de Frank Jorge, Wander Wildner e tantos outros.
Mas esse revival não é limitado a uma órbita bairrista. Um lançamento recente trouxe novamente o Iê Iê Iê ao Rio de Janeiro. De apelido bizarro e camisas sessentistas, o carioca André Paixão - ou Nervoso - rumina essa nova Jovem Guarda no ótimo Saudade das minhas lembranças.

Nervoso tem currículo extenso no rock carioca. Baterista, participou de formações dos Autoramas, Matanza e do recém-redivivo Acabou La Tequila. Assume agora o papel de bandleader, revelando-se bom cantor e letrista afiadíssimo.A estréia solo veio em 2003 com o EP Personalidade, que esgotou toda sua tiragem independente. Saudade, o debute oficial, foi lançado em 2004 pela carioca Midsummer Madness.
Disco de fossa invertida, Saudade começa saindo do buraco, peitando relações amorosas tortas já na primeira faixa, “Maus limites”, onde o ego do carioca larga tudo para seguir sua carreira.
Daí pra frente o clima segue, escrito por alguém em vias de superar a própria dor de cotovelo e que, apesar de leves recaídas (”Que martírio!” e “Despedida sem fim”) e resvalos em idéias suicidas de ritmo marcado (”O bom veneno”), finge ficar bem, com a agitadinha “Pra terminar” no final, depois de arrumar novo amor que tenta tapar o buraco do antigo (”Já desmanchei minha relação”).
Nesse meio tempo, cabem referências declaradas a Nelson Gonçalves (na baladinha “A visita”), inspirações no cinema pop-cult (”Clube da luta”, quase doo-wop) e uma canção à la papai-coruja (”Mais justo”, com direito a sample da voz do pequerrucho no meio do arranjo). O bom-humor das bandas que traz no currículo também vaza com abundância, em meio aos versos mais pesados. De bônus no final, Nervoso cola uma faixa synth-instrumental, artifício também muito bem usado no EP Personalidade, para ajudar a digerir o disco e provando que não é talento de um estilo só.
Saudade esbanja saudosismo do começo ao fim, mas de forma moderna, sem mastigar naftalina à toa. Nervoso carrega muito da Jovem Guarda - inclusive quase emulando a voz de Roberto Carlos em alguns momentos -, mas não se limita a ela, trazendo o folk e o rock atuais para o caldeirão.
Parte da crítica vem classificando o trabalho do carioca como um decalque dos conterrâneos Los Hermanos. A influência é inegável, em alguns arranjos, temas e maneirismos vocais – e a participação de Rodrigo Amarante em uma das faixas ajuda a puxar o cordão da teoria.
Mas mais que pura cópia, Nervoso e Hermanos compartilham um caminho musical em comum, do novo rock que não fecha os olhos à história da música brasileira. Mais saudável, impossível.

