Há tempos que Los Hermanos encaram a síndrome de “banda de uma geração”. Desde a sua consagração pós-“Anna Julia” com o lançamento de Bloco do eu sozinho, em 2001, a banda carioca viu seu público crescer exponencialmente, para o bem e para o mal.
Para o mal porque, com a crescente adoração, sempre comparada ao fervor dos fãs da Legião Urbana, os shows dos Hermanos se tornaram experiências insuportáveis. Das guriazinhas histéricas, que aproveitavam qualquer brecha para expressar seu tesão pelos dois vocalistas, aos adolescentes babões, estar na platéia se tornou um exercício para os nervos. Sentimento, aliás, muitas vezes compartilhado com a própria banda: não era raro ver Marcelo Camelo desistir de cantar as músicas mais famosas, contrariado – o público preferia fazer o coro a perceber a sua voz, no final das contas.
Com os dois discos seguintes, Ventura (2003) e 4 (2005), seguindo por composições mais adultas (e menos pop), a chatice não diminuiu. Os devotos hermanistas não se deixaram vencer pelas melodias quebradas ou letras elaboradas. A cantoria pentelha continuou à toda, afastando de vez os fãs que, na verdade, queriam ouvir a própria banda e não um karaokê de luxo.
Um milagre aconteceu, porém, no último show paulistano da turnê de 4, no começo do mês, dentro do City Jam Festival. O evento teve a sorte de reunir um karma bom, com um público mais interessado e menos abobado, numa noite irretocável.

A começar pelo lugar, o picadeiro de um circo transformado em palco, ambiente presente na mítica dos Hermanos, logo abaixo do universo carnavalesco. É o tipo de ambiente que combina com a banda, muito mais que uma casa de shows brilhante com uísque no cardápio.
Ajudou também o visível bom-humor dos cariocas (alívio pelo iminente fim de turnê, talvez?), fator que é fundamental para suas apresentações, por mais profissionais que eles tenham se tornado nos últimos anos. Deixaram de lado a rabugice e o intelectualismo, distribuindo sorrisos durante todo o curto show e tocando com real vontade. O palco pequeno fez diferença, escancarando sua integração – o espaço era suficiente para que Rodrigo Amarante fosse dedilhar sua guitarra nos fundos durante os momentos de brilho de Camelo, e vice-versa.
Fim de estrada, o clima era de balanço de ano novo. A seqüência de músicas começou recente, com “Pois é” e “O vento”, de 4, passou por Ventura (“Além do que se vê”, “O vencedor”) e, surpresa, resgatou de repente “Azedume”, uma das melhores faixas do longínquo primeiro álbum. Em seguida, a banda embarcou numa sessão retrospectiva, com as mais conhecidas de cada disco, de “Retrato pra Iaiá”, do Bloco, a “Último romance” e “Cara estranho”, de Ventura.
O público, mesmo que fervoroso, não se esforçava em sobrepujar os vocais de Camelo e Amarante e seguia sossegado os rituais dos shows hermanicos, como os confetes e serpentinas em “Todo carnaval tem seu fim”. Só se envergonharam diante de “Anna Julia”, o gasto e polêmico hit da banda, no finalzinho, quando o coro diminuiu como se estivesse diante de uma canção inédita, ainda com a letra não decorada. Pelo visto, os fãs interiorizaram a história tantas vezes negada de que os Hermanos não gostam da música. Vergonha de cantar o maior chiclete composto pelos cariocas? Bobagens de tiete…
No fim do show, depois de “Deixa o verão” e “A flor”, a banda saiu do palco ainda sorridente, sem traumas, agradecendo a receptividade paulistana. E os fãs que gostam de ter a chance de ouvir as músicas sem histeria no metro quadrado ao lado, mais agradecidos ainda. Talvez a platéia média dos Hermanos tenha mudado, de repente. É rezar para que, até o lançamento do próximo disco, boa parte dela já tenha saído da adolescência chata.