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Publicados em December, 2006

Jens é amor

14.12.2006 @ 03:13No Comments

Ia começar teorizando alguma coisa sobre a beleza, à la Umberto Eco, mas seria bobagem. A beleza mesmo foi toda resumida no show de Jens Lekman, há pouco, no Studio SP. Sabe um show belo? Não é intenso, emocionante, técnico ou fodido. É belo, e só.

Jens carrega todo o carisma que todo mundo achava que ele tinha mesmo. Tocou acompanhado de um baixista, uma trompetista/acordeonista e uma percussionista. Todos suecos, eu presumo. Isso além do laptop, que não deve ser. E foi aquela coisa: letras boas, melodias às vezes fofas às vezes confusas, bom humor cínico, tudo num pacotinho folk.

Minha memória não conseguiu carregar tudo o que tocaram. Sei que começou com “Your beat kicks back like death” (ou, mais simples, “We’re all gonna die”) e, quando vi, estava cantando “São São Paulo” do Tom Zé, arriscando um português numa cover que passou batida pelo público (gente do meu lado chegou a comemorar que Lekman compôs uma música para a cidade).

Depois, que eu lembre, “Pocketful of money”, dedicada à nossa “linda moeda”, “Opposite of hallelujah”, “Julie”, com a trompetista e a percussionista tocando no meio da platéia, e “You are the light”, minha preferida dele na última semana. No final, comemorou o dia de Santa Lucia e fechou com “Tram #7 to heaven”.

Show curtinho, como um primeiro encontro em um café qualquer. Pra se apaixonar.

Da revanche e da falta de ar

14.12.2006 @ 02:38No Comments

Na primeira vez que o Hell on Wheels tocou por aqui, em 2004, foi durante o Curitiba Rock Festival. Aquela mesma edição que trouxe Pixies, quando toda a platéia saiu com os dedos dos pés congelados pelo frio da Pedreira. Naquela noite, no palco, os suecos sacanas zombaram de todo mundo, tirando a camisa e mostrando que aquilo ali, pra eles, é verão.

Há pouco, quando tocavam no Studio SP, foi a vez da vingança. O acúmulo de gente + calor + falta de ar fez a banda passar mal de tanto suar. Quites.

Mas falando sério, o SSP ainda tem belos problemas quando resolve sediar shows disputados. A pista se transforma em uma sauna seca na temperatura máxima. Alguém disse “circulação de ar”? Pois, não existe.

Campeonato de sueca, já já

13.12.2006 @ 19:17No Comments

Jens Lekman toca dá o chute inicial na Invasão Sueca em São Paulo, agora à noite, no Studio SP. Abertura do Hell on Wheels e Erlend Øye, que já virou figurinha fácil na cidade.

Quem viu o show do sueco em Curitiba diz que saiu flutuando. Aqui não deve sair por menos. Aliás, já viu o recadinho que ele deixou colado no seu site?

Los Hermanos e seu show ideal

13.12.2006 @ 06:17No Comments

Há tempos que Los Hermanos encaram a síndrome de “banda de uma geração”. Desde a sua consagração pós-“Anna Julia” com o lançamento de Bloco do eu sozinho, em 2001, a banda carioca viu seu público crescer exponencialmente, para o bem e para o mal.

Para o mal porque, com a crescente adoração, sempre comparada ao fervor dos fãs da Legião Urbana, os shows dos Hermanos se tornaram experiências insuportáveis. Das guriazinhas histéricas, que aproveitavam qualquer brecha para expressar seu tesão pelos dois vocalistas, aos adolescentes babões, estar na platéia se tornou um exercício para os nervos. Sentimento, aliás, muitas vezes compartilhado com a própria banda: não era raro ver Marcelo Camelo desistir de cantar as músicas mais famosas, contrariado – o público preferia fazer o coro a perceber a sua voz, no final das contas.

Com os dois discos seguintes, Ventura (2003) e 4 (2005), seguindo por composições mais adultas (e menos pop), a chatice não diminuiu. Os devotos hermanistas não se deixaram vencer pelas melodias quebradas ou letras elaboradas. A cantoria pentelha continuou à toda, afastando de vez os fãs que, na verdade, queriam ouvir a própria banda e não um karaokê de luxo.

Um milagre aconteceu, porém, no último show paulistano da turnê de 4, no começo do mês, dentro do City Jam Festival. O evento teve a sorte de reunir um karma bom, com um público mais interessado e menos abobado, numa noite irretocável.

Los Hermanos @ City Jam Festival, foto flickr.com/hillbilycat

A começar pelo lugar, o picadeiro de um circo transformado em palco, ambiente presente na mítica dos Hermanos, logo abaixo do universo carnavalesco. É o tipo de ambiente que combina com a banda, muito mais que uma casa de shows brilhante com uísque no cardápio.

Ajudou também o visível bom-humor dos cariocas (alívio pelo iminente fim de turnê, talvez?), fator que é fundamental para suas apresentações, por mais profissionais que eles tenham se tornado nos últimos anos. Deixaram de lado a rabugice e o intelectualismo, distribuindo sorrisos durante todo o curto show e tocando com real vontade. O palco pequeno fez diferença, escancarando sua integração – o espaço era suficiente para que Rodrigo Amarante fosse dedilhar sua guitarra nos fundos durante os momentos de brilho de Camelo, e vice-versa.

Fim de estrada, o clima era de balanço de ano novo. A seqüência de músicas começou recente, com “Pois é” e “O vento”, de 4, passou por Ventura (“Além do que se vê”, “O vencedor”) e, surpresa, resgatou de repente “Azedume”, uma das melhores faixas do longínquo primeiro álbum. Em seguida, a banda embarcou numa sessão retrospectiva, com as mais conhecidas de cada disco, de “Retrato pra Iaiá”, do Bloco, a “Último romance” e “Cara estranho”, de Ventura.

O público, mesmo que fervoroso, não se esforçava em sobrepujar os vocais de Camelo e Amarante e seguia sossegado os rituais dos shows hermanicos, como os confetes e serpentinas em “Todo carnaval tem seu fim”. Só se envergonharam diante de “Anna Julia”, o gasto e polêmico hit da banda, no finalzinho, quando o coro diminuiu como se estivesse diante de uma canção inédita, ainda com a letra não decorada. Pelo visto, os fãs interiorizaram a história tantas vezes negada de que os Hermanos não gostam da música. Vergonha de cantar o maior chiclete composto pelos cariocas? Bobagens de tiete…

No fim do show, depois de “Deixa o verão” e “A flor”, a banda saiu do palco ainda sorridente, sem traumas, agradecendo a receptividade paulistana. E os fãs que gostam de ter a chance de ouvir as músicas sem histeria no metro quadrado ao lado, mais agradecidos ainda. Talvez a platéia média dos Hermanos tenha mudado, de repente. É rezar para que, até o lançamento do próximo disco, boa parte dela já tenha saído da adolescência chata.

Aquele é o Axl Rose?

12.12.2006 @ 23:3210 Comments

Eu tenho medo de roqueiros velhos.

The Cult em São Paulo
(publicado originalmente @ Omelete)

O maior pesadelo de um roqueiro é envelhecer, é o que dizem. Neste ponto, descontando-se Mick Jagger, só há dois caminhos: ou se adota uma postura mais cool, condizente com a idade, ou se enfia o pé na lama de vez, tornando-se uma caricatura falastrona de si mesmo.

Nosso bom e velho Ian Astbury, pelo visto, resolveu ir pelo segundo caminho. Com quase cinqüenta anos na testa, o inglês voltou ao Brasil com sua banda The Cult, reunida mais uma vez para uma turnê que atravessou 2006. É a alegria do fiel público dos anos 80, principalmente aquele que não tem mais saco de acompanhar o “rock de hoje em dia”.

The Cult, foto flickr.com/elenac

No palco, com uma bandana quase cobrindo os olhos e um figurino que não disfarçava a pancinha, Astbury mostrou toda sua postura de adolescente tardio, dando de ombros para o bom gosto e a vergonha alheia. Pirofagista às avessas, passou o show inteiro cuspindo água para todos os lados; se confundiu com o fio do microfone e atingiu seu rosto com o próprio pandeiro; fez piadinhas sem graça; sambou ao som de “olê olê olá” e se esforçou em um português ensaiadíssimo (“Obrigado, de nada!”, não cansava de repetir). Um picadeiro completo.

Tudo, talvez, para distrair sua falta de forma. Astbury não é mais aquele cara que encantou marmanjões e menininhas há tanto tempo. Sua voz está longe daquela época e, para piorar, ele prefere berrar ao microfone a cantar.

Para sua sorte, as músicas do Cult ainda sobrevivem, graças à afiada banda que reuniu e ao carisma das cordas do guitarrista Billy Duffy. O setlist seguiu o esquema “best of”, dando especial atenção à trinca de ouro oitentista do grupo - Love (1985), Electric (1987) e Sonic temple (1989).

Começaram já com “Lil’devil” e “Sweet soul sister”, coisa que nem a postura axlroseana de Astbury conseguiu detonar. O primeiro ápice aconteceu com “Revolution”, que fez surgir alguns tímidos isqueiros levantados pelo lugar. No meio do show, um momento acústico surpresa causou controvérsia, com o mega-hit “Edie (Ciao baby)”, acompanhado num violão de dar arrepios de tão canhestro. De volta aos amplificadores, desceram por “Fire woman”, “Rise”, “Wild flower”.

No final, a banda emendou “She sells sanctuary” e “Love removal machine”. Mais uma cusparada aqui, uma sambadinha ali, o público esvaziava rapidamente o lugar (talvez irritado pela demora de quase 15 minutos antes do bis) e o vocalista erguia uma taça de qualquer coisa, agradecido e feliz da vida. De nada, seu Astbury.