Uns milhares de toques aí (meio atrasados, eu sei) sobre o grande festival do ano. Ninguém se move, ninguém se machuca.
Nokia Trends 2006
“Se a chuva parasse”, dizia o refrão da primeira música que o Digitaria tocou no palco principal do Nokia Trends, abrindo o festival. Era esse também o pensamento do público que enfrentava a garoa torrencial que atingiu São Paulo durante toda a noite de sábado, 25.11, para chegar ao Anhembi.
Dando o chute inicial do evento, pontualmente às dez da noite, o quarteto mineiro mostrou o valor já reconhecido em sua recente turnê européia, sob as bênçãos do clã alemão da Gigolo Records. O electro punk do grupo funciona cada vez melhor ao vivo, apesar de alguns exageros performáticos do vocalista Fabiano, que esteve à beira de arrebentar sua bateria eletrônica na cabeça. O Digitaria acendeu a pequena audiência, com uma apresentação muito mais redonda do que a do Campari Rock, em abril. Prova cabal de que algumas bandas funcionam melhor sob um teto real.
Se o grupo brasileiro mostrou crescimento, a organização do Nokia Trends provou que ainda há quem saiba montar shows decentes por aqui. Conseguiram transformar o traumático Anhembi em um ambiente aconchegante e organizado, ganhando o milagre de não formar filas nos banheiros ou nos bares, começando os shows na hora marcada (o único atraso, com Ladytron, não chegou aos 15 minutos) e reunindo uma audiência divertida e sem afetação. O NT leva, de longe, o título de melhor festival de São Paulo em 2006, ano tão recheado de erros estúpidos de infra-estrutura, picuinhas políticas e público equivocado.
No palco, as novas velhas bandas
Quando o Soulwax desceu pela primeira vez ao Brasil, no Tim Festival de 2004, não era mais que uma banda ordinária de rock, projeto paralelo dos superestimados 2manyDJs. A apresentação xinfrim daquela época, porém, sumiu da memória no momento em que esta nova encarnação entrou no palco para o show mais surpreendente da noite.
Rebatizados como Soulwax Nite Versions, os instrumentos acústicos foram trocados por pilhas e pilhas de sintetizadores. Só restou uma guitarra aqui e ali, além do incansável baterista, responsável pelo ritmo da apresentação.

Fundamentando o não-movimento da neu rave (“are you ready to rave?” foi uma das poucas frases faladas pelo vocalista Stephen Dewaele), os belgas reavivaram sua performance com as bases que fizeram sucesso na sua persona DJ. O show do SNV é um set ao vivo, sem intervalo entre as músicas, misturando hits próprios (“Miserable girl”, “E talking”) a rápidas viagens por faixas alheias, de Lilly Allen a Tiga. Pop, techno, electro, punk, tudo fundido num caldeirão único. Foi, no mínimo, atordoante.
Tudo ao contrário do Bravery, que veio para cá com um bem-sucedido álbum de estréia nas costas e recém-saídos da finalização do segundo disco em estúdio. Não dá pra dizer que a banda não é esforçada ao vivo. Talvez seja esforçada até demais, beirando o manual do rockstar padrão. O vocalista Sam Endicott, principalmente, seguiu todas as regras, fazendo pose, puxando o saco da cidade (e das mulheres locais) e socando sua guitarra na bateria.

Mas faltou convencimento para além das entrelinhas, e a banda não empolgou como se achava. E a semelhança com o Cure, em alguns momentos, não ajudou. Quem não era fã, esvaziou a pista para conferir os 2manyDJs na área eletrônica do festival. O show só serviu mesmo para conferir alguns bons hits (“Fearless”, “Na honest mistake”) e algumas das novas, tocadas pela primeira vez, como “Every word from your mouth is a knife in my ear” e a quase country “Bad sun”, tocada com um estiloso violão listrado. No finalzinho, uma cover de “Don’t changes”, do INXS, surpreendeu (quem ainda ouve INXS hoje em dia?). Mas parou por aí.
O forno elétrico e a vingança dos nerds
Com sua escalação corajosa, sem um headliner massificado, o Nokia Trends confirmou aquela regra que todo mundo já conhecia mas não tinha culhões para provar: a maciça adoção do público brasileiro por bandas de pouca expressão no mainstream. Caso claro do fervor encontrado pela canadense Hot Hot Heat e a estadunidense We Are The Scientists – a primeira, velha conhecida de quem acompanha o rock indie mundo afora; a segunda, com seu hype recém criado.
Foi quase um show duplo. Na primeira parte o HHH, liderado pelos gritos do inabalável vocalista Steve Bays, esquentou o lugar (com o perdão do trocadilho óbvio). O repertório foi quase irmanamente dividido entre Make up the breakdown (o excelente debute, de 2002) e Elevator (último álbum, de 2005). De “Not, not now” ao hit “Bandages”, passando por “Goodnight goodnight” e a singela “You owe me an IOU”, todas as músicas foram acompanhadas pelo público. Nada mal para uma banda que nem tem seus discos lançados por aqui.

Depois da pancada canadense, o WAS transformou o palco do Nokia em um talk show nerd. Falastrões e verborrágicos, o vocalista Keith Murray e o baixista Chris Cain passaram todo o tempo falando bobagem, sacaneando o Hot Hot Heat e um ao outro. Mas era quando resolviam tocar de verdade que o grupo provava o crescente falatório ao seu redor.

O efeito coro dos canandenses continuou à toda, com o público acompanhando as músicas estranhas da banda, todas importadas do seu único álbum, With love and squalor – “Lousy reputation”, “It’s a hit”, “The scene is dead”. Na sensacional “Nobody moves, nobody get hurt”, a banda recebeu a participação de Steve Bays em um cowbell (pagando a ajuda do baterista Michael Tapper, que tinha tocado com o HHH em “Talk to me, dance with me”).
Ao final, com “The great scape”, Murray largou sua guitarra que teimava em não funcionar e se jogou pela segunda vez sobre a platéia. Voltou agradecido, elogiando o mundo e prometendo voltar em breve – coisas que Bays também falou. As juras de amor continuariam noite adentro, com as duas bandas explorando São Paulo. É esperar pra ver ate onde vão.
Tudo passa
Você sabe que tem alguma coisa estranha acontecendo quando até a fumaça do palco resolve subir em anéis. Foi esse o efeito do Ladytron, que encerrou o Nokia Trends, acabando de vez com a novela de sua passagem pelo Brasil, que atravessou todo 2006 (a banda chegou a ter duas datas marcadas, como atração do Sonora, ex-Curitiba Rock Festival).
Ao vivo, o electropop do grupo de Liverpool funciona como um sonho – não à toa há quem os rotule como ‘dream pop’. E essa sensação não atinge só aos fãs, o buraco é mais embaixo. Esforçada, com seus sintetizadores de estimação, a banda recria no palco todas as ambiências eletrônicas produzidas em estúdio. A estratégia encorpa as composições, criando um estofo a mais para as letras na voz singela de Mira Aroyo.

Eles entraram em desvantagem, pelo avançado da hora, depois da bordoada das primeiras bandas e a amornada do Bravery. O que salvou a banda, além da sua aura mítica, foi o poder das músicas. O repertório baseado no último álbum, Witching hour, abriu espaço para músicas mais antigas e até a surpresa “Send me a postcard”, cover da holandesa Shocking blue.
O ponto alto, como não poderia deixar de ser, ficou por conta dos hits “Seventeen” e “He took her to a movie”. O último single, “Destroy everything you touch”, encerrou a apresentação. A platéia órfã não arredou o pé, exigindo mais um bis, que não veio. Recebeu os membros da banda, com o palco sendo desmontado ao fundo, acenando como se dissessem “isso aí, galera, o sonho acabou”.
A essa hora, o sol já despontara lá fora. E sem chuva, desta vez.
(publicado @ Omelete)
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