Archive for October, 2006

Timfa 06: Beastie Boys, serviços de demolição

Tuesday, October 31st, 2006

Alguém avise a prefeitura do Rio de Janeiro: depois da passagem dos Beastie Boys pela Marina da Glória, os edifícios da região ao redor precisam de uma análise urgente das suas estruturas, abaladas pela pancadaria sonora produzida pelo grupo.

E isso não é um exagero. Assim que o DJ Mix Master Mike assumiu suas picapes, os graves começaram a estourar as caixas de som e a caixa torácica do público. A coisa era tão violenta que fazia voar, a cada batida, garrafas jogadas no chão perto do palco. Até uma pobre borboleta, surgida sabe-se lá de onde, se esforçava para fugir dali.

Os incautos que permaneceram na platéia receberam um show fenomenal, assim que os três vocalistas da banda assumiram os microfones. Onze anos depois de sua primeira passagem pelo Brasil, os estadunidenses mostraram que estão mais em forma do que nunca. O difícil era definir se aquilo era hip hop, punk, hardcore ou o que.

Tarimbados, Mike D, MCA e Adrock encarnam seus títulos de Mestre de Cerimônias. Sem parar de falar um minuto, vestidos de terno e gravata à la gangsta, revezavam a verborragia entre as músicas e interagiam com a platéia, seduzindo qualquer mortal. Não que eles precisassem de muito esforço, já que entraram no palco com a taça na mão.

O público da noite hip hop do festival, aliás, era o mais unido e empolgado de todos. Ponto talvez para a escalação do palco, única que fez algum sentido nos dois ambientes não-jazz do evento. A noite começou com o sensacional Instituto, com seu rap disparado sobre uma base não ortodoxa que inclui até um flautista, e o morno interlúdio do DJ Shadow, que falou demais e empolgou demenos.

No repertório dos B-Boys, os clássicos supremos da longa carreira dos rappers – “Time to get ill”, “The skills to pay the bills”, “No sleep till Brooklyn”, “Body movin’”, “Intergalactic” – mantiveram a energia no topo. No bis, voltando ao palco em formação de banda, com baixo-guitarra-bateria, detonaram com “Sabotage”. E a pobre da Guanabara nunca mais será a mesma.

(publicado originalmente @ Omelete)

Timfa 06: o cê de Caê

Tuesday, October 31st, 2006

Em 2005, Caetano Veloso foi uma das grandes atrações paralelas do Tim Festival. Genuinamente interessado no que acontecia por ali, acompanhou (e comentou, como é seu praxe) os shows indies dos Strokes, Vincent Gallo e Arcade Fire e participou de uma reunião íntima com o povo do Wilco. E nem ligou para o olhar torto dos roqueiros, desagradados pela sua versão de “Come as you are”, do Nirvana, gravada no disco A foreign sound, do ano anterior.

Agora, um ano depois, Caê volta ao Tim com… um disco “indie”. O recém-lançado relê a verve poética do compositor baiano com uma crua sonoridade rock, liderada pelo músico carioca Pedro Sá. Apesar de ótimo, o álbum levantava algumas dúvidas sobre se o cantor conseguiria segurar, ao vivo, a peteca distorcida de sua nova fase.

Classificado como “cantor pentelho de MPB”, já faz tempo que Caetano está afastado da massa jovem. Um sintoma disso era as vaias maciças do público do palco Lab, na sexta e no sábado, quando as caixas de som anunciavam sua apresentação no festival. Escalado de última hora, o cantor foi responsável pelo encerramento do Tim, já na segunda de madrugada, levando vantagem por não compartilhar a platéia com nenhum outro nome. Só restaram os fãs e os curiosos dispostos a uma colher de chá.

Apesar de seus trejeitos e maneirismo vocais tão identificados com as duas últimas décadas como bastião da MPB, o baiano fez a fórmula de seu novo rock funcionar ao vivo, lembrando seus bons tempos de moleque tropicalista, com o apoio de sua competentíssima banda púbere (além de Pedro Sá, o baterista Marcelo Callado e o baixista Ricardo Dias Gomes).

Ao vivo, soa como em estúdio, cruel nas guitarras violentas. Destacaram-se, como no disco, as ótimas “Minhas lágrimas” (pós punk com bateria de bossa nova), “Homem”, “Não me arrependo”, que é quase loureediana, e “Rocks”. Em “O herói”, seu quase rap, Caê cedeu e apelou para uma cola para acompanhar a letra gigantesca – aproveitou para inserir um tom raivoso, melhorando a música.

Pela quantidade de fãs na platéia, fica difícil saber se a nova sonoridade do cantor seria aprovada por um roqueiro comum. Mas ali, com essa apresentação histórica, Caetano saiu consagrado. E foi forçado a um bis, improvisando com “You don’t know me” e “Nine out of ten”, com um pedacinho de “Mora na filosofia”, todas do clássico Transa (1972) e “Como dois e dois”, gravada por Roberto Carlos em 1971. Surpresas para encerrar o festival em altíssimo estilo, enquanto o sol já despontava lá fora.

(publicado originalmente @ Omelete)

Origami

Tuesday, October 31st, 2006

Olha aí: tendência na temporada é o pôster com marca falsa de dobradura.

Lennon vs Borat

Aqui tem dois. Os Estados Unidos contra John Lennon e Borat.

Nossa, eu filmei isso!

Tuesday, October 31st, 2006

Não foi ao show? Veja o filme.
E viva os títulos panacas.

Nossa, eu filmei isso!
(publicado originalmente @ Omelete)

Fato: só os fãs gostam de vídeos de shows. Apesar de servirem como registro histórico, é bem difícil pescar uma filmagem bacana, que não entedie o telespectador depois da segunda música. Essa é a vantagem de nomes como Madonna, que investem milhões em cenários mutantes, efeitos especiais e iluminações faraônicas. No vídeo, o que vale é a imagem; a canção é mero acessório.

É esse o espírito de Nossa, eu filmei isso! (Awesome; I fuckin’ shot that!, 2006), protagonizado pelos Beastie Boys. Apesar do título carola, em comparação com o desbocado original, o filme já vem histórico antes mesmo de ser projetado.

Nossa, eu filmei isso! 

A idéia era ousada. A banda distribuiu 50 câmeras digitais para pessoas comuns da platéia, com uma única orientação: “assim que começar o show, apertem o botão vermelho e nunca parem de filmar”. Os selecionados, é claro, levaram as instruções ao pé da letra. Daí nascem os registros periféricos de uma mega-apresentação no Madison Square Garden, em Nova York, com as imagens de quem realmente esteve lá.

No palco, os Beastie Boys mostram porque ainda são, depois de mais de vinte anos, um dos nomes mais relevantes do legítimo hip hop estadunidense. Inflamados por estarem tocando na sua cidade natal, os três levam ao máximo a sua verborragia branca e irônica. Com a ajuda do DJ Mix Master Mike, que faz miséria com seus pobres vinis, enfileiram todos os grandes hits da carreira.

Mas são as mulheres da platéia, a visão sofrida do canto da arquibancada, uma passagem (em detalhes) pelo banheiro, a salsicha da lanchonete, o autógrafo na grade, Adam Sandler cantando todas as músicas como uma boa fãzoca, os elementos que dão brilho a Nossa

O polimento vem da edição intrincada. As câmeras do público se misturam à filmagem profissional, que garante uma visão mínima do palco. A impressão que dá é que a equipe de montagem foi pirando à medida do trabalho – é como se, a cada cena, eles descobrissem uma nova ferramenta cafona na ilha de edição. No começo tudo vai bem, com uma certa preocupação em uma edição linear. Quando o show esquenta, aparecem os cromaquis, as montagens, as cores invertidas, os efeitos especiais dignos de vídeos de formatura. Prestando atenção na hora que fica piscando no canto da tela, dá até para flagrar alguns takes fora de tempo.

O erro e a tosquice, aqui, viram charme. Em uma época como a de hoje, regada a vídeos de porca resolução espalhados em mil youtubes, nada mais certo.

Lennongate

Tuesday, October 31st, 2006

Filmão. 

Os Estados Unidos contra John Lennon
(publicado originalmente @ Omelete) 

É difícil para alguém com menos de 40 anos lembrar disso, mas já houve uma época em que os EUA ainda não eram governados pelo abananado George W. Bush, em que uma guerra nonsense era questionada com força pela população estadunidense, e em que a luta da cultura pop contra os poderes constituídos era mais consistente do que os argumentos de Michael Moore.

Estamos falando aqui do final da década de 60, quando Richard Nixon comandava o xadrez sangrento da Guerra do Vietnã e suava para enfrentar a opinião pública. Além de se preocupar com a mídia e com os bastidores do jogo político, naquela época ainda claramente polarizado, o então presidente tinha um belo calo na figura dos artistas, que inflamavam a população contra suas decisões.

John Lennon é o mais notório dessa lista. Não mais o Beatle de cabelo arrumadinho, logo após o fim da banda com Abbey road, o inglês investia cada vez mais em sua nova persona, com carreira solo e ao lado de sua musa Yoko Ono.

Os Estados Unidos contra John Lennon 

Morando nos EUA, Lennon se tornou uma metralhadora de marca maior, cada vez mais mirada na Casa Branca. Talvez por influência de Yoko, talvez pelo seu saco cheio com a situação mundial, o músico se politizou, aliando-se a figuras ativistas, como o líder do grupo Panteras Negras Bobby Seale, contra todas as decisões do governo Nixon.

É essa situação que Os Estados Unidos contra John Lennon se propõe a explorar, em sua montagem cuidadosa. O documentário resgata a história de então, costurando vídeos da época com depoimentos de nomes que vão de Gore Vidal ao apresentador sensacionalista Geraldo Rivera.

Em retaliação à sua posição de “figura pública com opinião”, Lennon tornou-se alvo preferencial de Nixon e de J. Edgar Hoover, o mítico diretor do FBI. A agência espionou o músico, levantando um imenso dossiê. A guerra viria à tona quando a justiça decidiu deportá-lo, usando como desculpa uma apreensão de maconha na Inglaterra, anos antes.

Os Estados Unidos contra John Lennon tem lá suas falhas, como não se aprofundar no que Lennon realmente defendia (bem diferente do ele atacava) ou dar a entender que Sean foi seu primeiro filho. Mas cumpre seu papel ao apresentar, a um público que não tem um forte referencial ao microfone, sua figura contestadora. Devia servir de exemplo para esse bando de artistas franguinhos que estão por aí. O mundo precisa, cada dia mais, de um galo bravo feito Lennon.