No finalzinho do seu show, Patti Smith brandia sua guitarra e gritava “Esta é a única arma que vocês precisam”, logo antes de entrar em transe e cortar todas as cordas. É a cena que fica da apresentação mais marcante deste festival, já no topo dos melhores shows de 2006.
Vestida de terno e gravata, com sua desgrenhada cabeleira cinza sobre o rosto marcado, Patti trouxe ao Rio de Janeiro toda a força do seu posto de “poeta e mulher do punk”. Encarnou ali, entre uma cusparada e outra, a sua geração que revolucionou os anos 70 na base das botinadas.


Adjetivos não faltam. No palco Patti Smith é uma figura intensa, irônica, raivosa – daquele tipo que te pega pelo fígado assim que abre a boca. E é, apesar de seu buço não corresponder à estética das capas de revista, incrivelmente sexual, feminina, arrebatadora. Suas roupas remetiam à musa retratada por Ropert Mapplethorpe na capa de Horses, seu primeiro disco. Você até pode classificá-la como Deusa, mas ela provavelmente vai lhe chutar os bagos em troca.
Sabendo o que faz, na sua primeira apresentação por essas terras de baixo, Patti calcou seu repertório todo nos anos 70. Entrou no palco com “Gimme shelter”, clássico dos Rolling Stones, já dando o tom do que viria a seguir. Sempre politizada, a cantora entremeava as músicas com discursos de consciência – contra as religiões, guerras e o presidente Bush, a favor do meio-ambiente. Pautou até as eleições brasileiras, que aconteceriam no dia seguinte. O que soaria banana na voz de outras pessoas, na dela fez todo o sentido.
A seguir, uma seqüência de Horses (“Kimberly”, “Redondo beach” e “Free money”) e outras de suas pérolas setentistas, do naipe de “Pissing in a river” e “Rock’n’roll nigger”. Atrapalhando a missa punk, apenas alguns problemas técnicos – guitarras que desapareciam e o teclado que atrapalhou o início de “Because the night”.
A dobradinha de despedida com “People have the power” (a única dos anos 80) e o grande hit “Gloria” lavaram a alma dos fãs e da molecada que só estava ali pelos Yeah Yeah Yeahs. E lá foi Patti Smith para os bastidores, com uma nova coleção de rins na bagagem.

Alô criançada, o Bozo chegou
As meninas (e meninos) travestidas de Karen O provavelmente não concordam, mas o show da nova-iorquina Yeah Yeah Yeahs foi uma grande desilusão.
Incensada desde 2001 graças ao seus ótimos discos, a banda chegou ao Rio como uma grande promessa, carregando o peso de atração principal do palco principal no sábado. Mas alguma coisa ali não encaixou direito.
Karen O entrou no palco embrulhada em um quadro de Volpi. Carismática, levou os fãs pela mãos, dançando desengonçada e fazendo poses e macaquices com as roupas e com o microfone (devidamente jogado na cabeça da platéia ao final do show). Tudo o que se esperava dela – mas quem passou anos vendo a brasileira Lovefoxxx fazer a mesma coisa à frente do Cansei de Ser Sexy não se impressiona.



Metade do show foi baseado em Show your bones, lançado este ano, abrindo concessões para os outros dois discos da banda. Canções como “Cheated hearts”, “Art star”, “Pin” e “Gold lion” fizeram bonito, sempre bem executadas.
Mas perfeição técnica não faz um bom show. Faltou aos YYY uma pegada mais legítima, um pouco de porra-louquice, vontade de acreditar no que estão tocando. Talvez os nova-iorquinos funcionem melhor em um palco pequeno, com uma platéia bêbada, sem se preocupar muito em ser uma grande banda. Por enquanto, fica a impressão que os gritos ardidos de Karen O funcionam melhor nos discos.
(publicado originalmente @ Omelete)

