O homem certo no momento errado. É essa a impressão que ficou após o show de Devendra Banhart no Tim Festival. O texano chegou ao país idolatrado pela crítica, com uma discografia prolífica e excelente e uma esforçada tendência a idolatrar o Brasil – fã confesso de Caetano Veloso, cita a fase tropicalista da música brasileira como uma de suas grandes influências.
Com todo essa curiosidade gerada, o músico sofreu com uma série de fatores desconjuntados. O clima no palco estava alto pela passagem de Amadou & Mariam, um casal de cegos de Mali, recém-adotados por Manu Chao, que animou a platéia com um folk pop africano que, para os mais atentos, lembrou até as músicas enraizadas pelos negros na Bahia.
Devendra enfrentou problemas técnicos no começo do show, que pareceu aumentar o nervosismo do grupo – alimentado pela presença do ídolo Caetano na platéia. Sua decisão de fortificar as suas músicas, deixando um pouco de lado o lirismo dos discos, também não colaborou.

Falante, a estrela passou o show conversando em inglês e espanhol (ou spanglish, como preferiu definir), pedindo desculpas pelo seu português ruim e pelos problemas sonoros, e elogiando nosso país à exaustão (“O Brasil é um mundo à parte” e “Isto aqui é um paraíso, quando você morre, vai para o Brasil”).
O repertório revisitou os últimos cinco álbuns e EPs lançados pelo cantor em dois anos, além de “You may be blue”, da banda amiga Vetiver. A seqüência começou calma, com os músicos tentando se entender com os equipamentos, já lançando mão da seqüência “Hey mama wolf”, “Heard somebody say”, “At the hop” e “Bluebird”. No final, mais intenso, atacaram com canções como “Long haired child” e “I feel like a child”.
É inegável a raiz hippie de Devendra e seu bando – basta olhar para seus cabelos sujos, as barbas desgrenhadas e o figurino brecholento. No palco, eles encarnam com propriedade uma banda importada direto dos anos 70, recém saída de uma Kombi rosa, e é essa mis-en-scène que dá mais graça à banda. Alguns fãs mais animados, aproveitando essa tendência riponga, jogavam pétalas e flores para os músicos.
Ao final, já sem camisa, Devendra voltou para o bis e homenageu Caetano Veloso (que não subiu ao palco, como se esperava) com “Lost in paradise”, do segundo disco solo do cantor. Ponto final em uma celebração hippie-tropicalista, que poderia ter sido melhor, mas não foi de todo ruim.
(publicado originalmente @ Omelete)

