Ré, mi, dó, dó, sol. A clássica seqüência que permitia comunicação entre humanos e extraterrestres em Contatos imediatos do terceiro grau, filme de Steven Spielberg, soou nas caixas de som do palco principal do Tim Festival no seu primeiro dia. Era a senha para a entrada de Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, com um atraso fenomenal de uma hora.
Era o momento do Daft Punk iniciar sua comunicação com a ralé humana que lotava a platéia. Encaixados em uma pirâmide luminosa, com seu clássico figurino cyberpunk, com jaquetas pretas e capacetes reluzentes, a dupla encarnava todos os conceitos da velha ficção científica.
A grande diferença é que aqueles que imaginavam os anos 2000 como um futuro utópico, cheio de robôs e máquinas voadoras, provavelmente não sabiam fazer dançar. Missão que estes franceses alienígenas cumprem com louvor.

Para quem não estava no pique de se entregar à música, o duo pode se resumir ao intrincado espetáculo visual. Congelados no topo do seu mundo, concentrados nos seus controles e botões, Bangalter e Homem-Christo são cercados por uma parafernália de luzes e projeções que explodem nas córneas da audiência.
Logo abaixo, vem a música, fazendo vibrar o fêmur dos presentes. Em pouco mais de 60 minutos, o Daft Punk desfilou uma seqüência de hits. Começaram com “Robot rock” e, até evoluir para “Human after all”, passaram por coisas como “Da funk”, “Television rules the nation”, “Technologic”, “Harder, better, faster, stronger” e, claro, as manjadíssimas “One more time” e “Around the world”. Todas remixadas e desconstruídas, transformadas em uma enorme canção eletrônica. Apareceram também releituras para Busta Rhymes (“Touch it”) e Gabrielle (“Forget about the world”).
Olhando com frieza, o show pode parecer sem graça para quem gosta de uma performance realmente ao vivo. Afinal, não existe o risco de um guitarrista que erra a nota ou do baterista perder o andamento. Mas o autocontrole da dupla compensa o quesito não-orgânico, jogando na lama boa parte dos live PAs modernosos de música eletrônica que surgem a todo momento.
(publicado originalmente @ Omelete)

