Essa é pra arquivar mesmo - e pra linkar no próximo post. Resenha do primeiro disco do Francis MacDonald e (depois do break) entrevista de quando ele veio tocar por aqui, em 2003.
Porra, faz tempo.
Sauchiehall and Hope (a pop opera)
(publicado originalmente @ Omelete @ 06.2003)
“Sauchiehall and Hope” é uma esquina como qualquer outra, sem maiores atrativos. Sua única particularidade é ser localizada no centro de Glasgow, na Escócia. A maior parte dos anônimos que passa por ela provavelmente se dirige aos shoppings, teatros e cinemas que estão nos outros quarteirões, ou à estação de trem que fica alguns metros adiante. Mas é nessa esquina que acontece a “ação” deste disco.
Sauchiehall and Hope, primeiro disco solo de Nice Man (Francis Macdonald), é um roteiro pronto para um musical romântico. Nada de super-produções, porém. O tom está mais para um filme curto e de baixo orçamento, seguindo o estilo das comédias inglesas da década de 90. No lugar das coreografias impossíveis, apenas aquelas dancinhas vergonhosas que todo mundo faz sozinho em casa, quando está apaixonado.

Está tudo lá: o instrumental para a abertura (“Before Sauchiehall & Hope”), apresentando os protagonistas e os coadjuvantes, todos amigos do diretor; a epifania amorosa para quando o mocinho encontra a mocinha da sua vida no meio da rua (“Fallin in luv” e “Let’s radiate love”); a paixão (“Watching the band”); a fase dos apelidos íntimos (“She’s a monkey”); a briga por causa de outras mulheres (“Daydream girls”) que causa a separação (“Bad mood”), seguida pelo arrependimento (“Back in your heart” e “Loser”); e o final que, se não é feliz, é humano (“Grey hair”).
Outro instrumental fecha o pacote, embalando os créditos finais (“After Sauchiehall and Hope”), enquanto os espectadores discretamente enxugam as lágrimas nas mangas das blusas. De brinde, o bis de “Fallin in luv”, para a cena surpresa no final da fita.
Sauchiehall and Hope é também um disco praticamente perfeito. Um apanhado de dezove músicas curtas em quarenta minutos, refletindo o rock fofinho produzido na Escócia na última década. A primeira fase dos Beatles e Beach Boys é lembrança constante, representando os anos 60. Folk, power pop e o country original também mantém seus pés em algumas faixas.
Um dos melhores lançamentos do ano por aqui, Sauchiehall and Hope é um álbum que não precisava ser gravado. Mas está pronto, e é uma peça musical das mais adoráveis, que transpira despretensão.
Entrevista: Francis MacDonald
(publicado originalmente @ Omelete @ 06.2003)
Francis MacDonald é um cara sortudo, que estava no lugar certo, na hora certa. Essa combinação fez com que ele se envolvesse até o pescoço na criação da atual cena pop da Escócia.

Num primeiro momento, foi o baterista original do adorado Teenage Fanclub, posto que retomou em 2001. Na mesma época, entrou para o BMX Bandits, onde permanece até hoje como compositor.
Mas sorte não é tudo e, se tem alguma coisa que não falta a Francis, é talento. Prova disso é sua interminável lista de colaborações, que cobre praticamente todas as bandas da Escócia.
Outro lado de sua personalidade é o bom gosto nos negócios. Há três anos ele mantém sua própria gravadora, a Shoeshine Records, que tem um catálogo pequeno, mas excelente. Sauchiehall and Hope (a pop opera) é o primeiro lançamento da carreira solo inexistente de Francis. Gravado sob a alcunha de Nice Man, o disco é uma combinação de todas as características citadas acima: sorte, talento e bom gosto.
O álbum conta uma singela história de amor, dividida em 19 faixas curtas. As músicas navegam pelo folk, country e power pop tão característicos na cena escocesa.
Com Sauchiehall and hope recém-lançado por aqui pela Slag Records, Francis vem ao Brasil para uma mini-turnê, e já está provocando suspiros de excitação nos “indies” locais.
Como você teve a idéia de escrever uma ‘ópera pop’? O que te inspirou?
Quando estava fazendo o álbum, eu estava meio inseguro em relação a algumas músicas. Ia eliminar algumas mas percebi que, se as colocasse numa determinada ordem, elas contariam um tipo de história. Então, cada canção teria um propósito e eu poderia manter todas.
Essa foi a verdadeira razão de ter uma seqüência nas músicas. A partir do momento em que tive essa idéia, a organização foi bem mais fácil, colocando as faixas instrumentais no começo e no fim, e a reprise da primeira canção que te leva de volta ao começo. É uma piada - óperas rock podem ser pomposas, então, isso é uma ópera POP.
Por que o apelido ‘nice man’? Você realmente é um cara bacana ou é apenas uma pequena farsa para atrair as pessoas?
Era pra ser uma coisa irônica. É aquele tipo de coisa que é tão certo que só pode ter uma pegadinha. Mas infelizmente as pessoas levam ao pé da letra e acabam achando que eu estou me auto-proclamando um cara legal…
A cena em Glasgow parece ser bem amigável, com todo mundo tocando nos CDs de todo mundo. Você mesmo já gravou com Belle & Sebastian, The Pastels e tantos outros. Porque decidiu tocar todos os instrumentos no seu CD solo?
É verdade, um grande número de músicos colabora nas gravações dos outros. Sempre foi assim desde que eu comecei a tocar com o BMX Bandits, mas eu realmente não sei porque… Decidi tocar todos os instrumentos neste álbum para que ele fosse realmente um verdadeiro projeto solo. Mas na próxima vez devo usar uma banda, será um pouco menos solitário.
Algumas faixas de Sauchiehall… têm uma grande influência de country music, que também é um dos seus estilos favoritos. Como você tomou contato com esse estilo? Isso aconteceu nos primeiros anos em Glasgow ou é algo que você descobriu ao viajar pelo mundo?
Eu tenho ouvido country music por muitos anos, e lanço country pela Spit & Polish, que é uma divisão da minha gravadora, a Shoeshine. Também compus músicas e toquei junto com uma banda country escocesa chamada Radio Sweethearts. A música country é popular na Escócia. Tem um lugar interessante chamado Glasgow’s Grand Ol’ Opry, onde muita gente veste chapéus e botas de cowboy e ficam dançando todos iguais, sabe? Isso não faz meu estilo, mas é uma coisa divertida de se ver de vez em quando.
Há realmente uma influência country na minha forma de compor. O estilo é popular pelo Reino Unido e tem sido assim por um bom tempo. Acho que o country tradicional soa muito como o rock’n'roll. Mesmo os Beatles costumavam tocar muitas canções country.
Essa recente onda do alt.country também te atraiu?
Eu realmente prefiro o country tradicional, honky tonk: Willie Nelson, Johnny Cash, George Jones. E os músicos da Spit & Polish - Paul Burch, Laura Cantrell, etc.
Tem alguma coisa que esteve ouvindo recentemente pra recomendar?
De country music? Eu gosto de Junior Brown e Wayne Hancock. Eles são modernos, mas seu som é bem tradicional. Na música pop, eu realmente gosto de Stephin Merritt. Ele tem diversas bandas: The Future Bible Heroes, The Magnectic Fields, The 6ths. Acho que o 69 love songs, do Magnetic Fields, é um álbum incrível. Gosto também dos dois últimos do Go-Betweens. E estou interessado em ouvir o próximo do Belle & Sebastian, produzido pelo Trevor Horn.
O que você está esperando desta mini-turnê? Já pensava em vir para o Brasil antes?
Eu espero me divertir bastante. Não faço shows solo freqüentemente, nunca toquei em Glasgow sozinho. Não estou tentando estabelecer uma carreira solo, só quero me divertir. É muito excitante ser convidado a ir ao Brasil!
Bandas como Teenage Fanclub, BMX Bandits e Belle & Sebastian recebem uma grande devoção por aqui, mesmo sem aparecer na mídia. Isso tem impressiona?
Eu acho muito estimulante. Eu sei que o TFC está pronto para ir tocar ainda este ano. O pessoal do Belle & Sebastian disse que teve uma ótima passagem pelo Brasil.
Muitas pessoas por aqui vão estar no seu show porque você é o mais perto que elas podem chegar do Teenage Fanclub. A mesma coisa aconteceu recentemente com as Breeders, que vieram no vácuo deixado pelo Pixies. Até mesmo um abaixo-assinado, pedindo um show do Teenage, foi preparado para ser dado a você. Não te incomoda que as pessoas vão “ao show do cara do Teenage Fanclub” ao invés do “show do Francis Macdonald”?
Todo mundo será bem-vindo. Mas se eles esperam ouvir uma sequências músicas do Teenage Fanclub, vão se decepcionar.
Você está planejando tocar alguma coisa do Teenage, pra agradar a esse tipo de fã?
Talvez.
Pra você, qual a grande diferença em tocar em projetos diferentes como BMX, Teenage Fanclub ou Nice Man? São formas distintas para você se realizar como músico?
No Teenage Fanclub eu só toco bateria, a banda é mesmo Norman, Raymond e Gerry. No BMX Bandits eu sou compositor, ao lado do Duglas, e essa é uma grande experiência. Ele é um talento incrível. Nós acabamos agora um novo álbum e acho que ficou muito legal - pop bom e divertido.
Já o Nice Man sou eu, completamente sob meu controle, seguindo meu nariz. Vou fazer um novo álbum solo ainda este ano. Vou escrever todas as canções, mas usar outros músicos. Acho que posso fazer um disco melhor que este de estréia.

