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//@ Omelete, auto-clipping, cinema

O signo do caos

13.10.2006 @ 19:43

“É um antifilme para um antiespectador”. Me enviaram isso agora, um desabafo pós-O signo do caos, último e sensacional filme de Rogério Sganzerla. Opinião é opinião, mas o senhor ali é bom em frases de efeito.

E já que o depoimento é piada interna só para quem já viu o filme, caio de novo na clássica desculpa-para-arquivar-textos-velhos ™, com a resenha do filme.

O signo do caos
(publicado originalmente @ Omelete @ 11.2005)

Na sua vida de cineasta independente, Rogério Sganzerla foi um saudável obsessivo. Um dos seus maiores alvos era o americano Orson Welles - particularmente sua passagem pelo Brasil em 1942, quando tentou filmar o documentário It’s all true. O filme ficou só no ensaio, resultado do repentino boicote pelo Departamento de Imprensa e Propaganda do governo Vargas e pelos financiadores estadunidenses, e se perdeu sem nunca ser finalizado.

O episódio foi assunto de três filmes de Sganzerla – Nem tudo é verdade (1986), A linguagem de Orson Welles (1990) e Tudo é Brasil (1998) – e volta à tona agora. O signo do caos é o último filme do diretor brasileiro, morto em 2004, e finalmente chega às telas, depois de passar anos nos baús e viajar por festivais e retrospectivas desde 2003.

O signo do caos

It’s all true é, de certa forma, o grande personagem principal e metalingüístico de O signo dos caos. Ao confiscar os originais do filme wellesiano no cais do porto de um Rio de Janeiro perdido no tempo (mas presumivelmente do Estado Novo), agentes-capangas do DIP levam as latas ao chefe-censor, o Doutor Amnésio, “vilão” da história, responsável supremo pelo que sai ou não dos porões da censura para o mundo. “Amo o que os outros detestam e odeio o que os outros apreciam”, é o seu lema.

Dentro de uma sala de projeção, Amnésio julga o filme um perigo, por focalizar muito realisticamente a imagem do “Brazil” que o governo não quer exportar e ir contra os preceitos carolas da montagem cinematográfica. Ao seu lado, o jornalista Edmar Morel luta pela sobrevivência da película, personificando o bom-senso na eterna discussão com o censor. “Se esse filme não serve pra ver, então também a vida não serve pra viver”, filosofa.

Essa primeira parte d’O signo foi filmada em preto e branco, película velha e suja como o cenário do debate, e contrasta com o segundo tempo do filme, em cores. Morel se reencontra com sua noiva no cais e os censores se reúnem em uma festa obscena, comemorando a vitória contra a livre expressão da arte, que já se encontra no meio do fogo ou no fundo do mar fluminense. Nada de final feliz por aqui.

Mas uma sinopse linear e simplória como essa é vergonhosa e injusta para descrever O signo do caos. O filme é isso, mas não é – ou pelo menos, não só. A crônica sobre o que aconteceu com o trabalho perdido de Welles nas mãos do governo brasileiro, apesar de traduzir mais uma vez a paixão de Sganzerla, é uma mera superficialidade para discussões maiores.

A fita é uma alegoria agressiva, escarrada pelo cineasta, sobre o estado de dormência permanente do cinema nacional. Classificado como “o antifilme de Rogério Sganzerla”, O signo do caos é o negativo do adorado superfilme nacional, o cinemão do Brasil-Hollywood que integra as eternas retomadas da nossa produção, sem grandes experimentações ou reviravoltas estéticas.

A censura praticada pelo governo evoluiu e agora é personificada pela indústria, é essa a conclusão que o diretor, que sempre se manteve (ou foi mantido) à margem das engrenagens, quer transmitir. Ele manda seu recado pela boca de seus personagens: “hoje qualquer um faz filmes. Ou pensa que faz”.

À parte a discussão, o cinema de Sganzerla está todo na tela em sua melhor forma, com o caos semi-ordenado que é sua marca desde O bandido da luz vermelha e A mulher de todos, seus primeiros longas. A montagem fragmentada do cineasta constrói a coerência a partir da incoerência, com fotogramas repetidos, som desencontrado com a imagem, a dublagem fora dos lábios dos personagens.

Referências visuais à obra de Orson Welles (como o amuleto de vidro de Charles Foster Kane, que vai parar nas mãos de Camila Pitanga, presença magistral como a dançarina Furacão de Santos) se misturam a outras influências-obsessões de Sganzerla, como James Joyce e os poetas concretos brasileiros, ao reaproveitamento de clichês nos diálogos e na atuação dos atores (como sempre, em simbiose com o diretor) e à presença debochada da canção “Aquarela do Brasil“.

Uma labirintite que, como quase nenhum filme nacional, serve para incomodar o espectador – e o capanga desdentado ri nervosa e continuamente da situação e da audiência.

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