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//@ Omelete, auto-clipping, cinema

“O concepcionista é uma fraude que dura 24 horas”

18.05.2006 @ 04:56

A concepção 

Certa vez, em um bate-papo, ouvi uma frase mais ou menos assim: "Se o filme é sempre elogiado pelos quesitos técnicos, quer dizer que o conteúdo é uma merda. Quando alguém vem e diz 'tal filme tem uma fotografia linda', é batata: fodeu".

A concepção, filme nacional que estreou na semana passada, é exatamente isso. Trabalho de filmagem ótimo, trilha sonora incrível. Edição, montagem, luz, figurino, maquiagem… tudo acima da linha. Ele até teve boas ações de marketing "underground", como palavras de ordem grafitadas em muros pela cidade (ok, isso é batido) e com vídeo do manifesto concepcionista no Youtube - à la Bruxa de Blair, mas que ninguém viu.

Mas aí, quando esbarra no conteúdo, a nhaca aparece. Filme furado, com pretensão lá em cima. Pff. Vai aí abaixo a crítica, em mais toques. Esta intro, na verdade, foi só para poder usar o primeiro parágrafo, que não lembrei de incluir no texto original.

A concepção
(publicado originalmente @ Omelete)

Exercício de suposição abstrata: se A concepção (2006) chegasse à TV aberta, sua sinopse seria algo como “uma galerinha do barulho que vai aprontar altas travessuras nas suas férias de verão, deixando todo mundo de cabelo em pé”.

Esse padrão boboca das chamadas globais serve bem para resumir a profundidade deste filme, primeiro do diretor José Eduardo Belmonte a desembarcar no circuito comercial. Apesar de ganhar pontos pelo ótimo trabalho técnico que chega à tela, A concepção se suicida com seu esforço em chocar a audiência – sexo, drogas, desbunde desenfreado, toda essa patacoada que não impressiona mais ninguém há um bom tempo – enquanto mergulha em um balde de verniz em que se lê “filosofia barata”.

A concepção

No centro do enredo, um grupo de jovens cujo único problema aparente é a cidade onde vivem: Brasília, o inferno do planalto, responsável pelo desequilíbrio mental de seus habitantes. Longe dos pais, desesperados pelo tédio e pelo achaque psicológico da sociedade moderna, resolvem criar um movimento anarquista: o concepcionismo.

Ideais? Nenhum, além do ato de viver. Esses "easy riders" candangos queimam seus lenços e documentos, pregam a liberdade de idéias, querem ser novos indivíduos a cada momento. “As pessoas estão doente de si mesmas”, juram, adotando o bordão da “morte ao ego”, gritado com freqüência. E a pergunta que fica é: “hein?”.

Apoiado num pires de conceitos soltos, o filme joga seus personagens como loucos pré-manicômio dentro do mundo concreto. No meio do caminho, surge um Buda para dar estofo à piração: X, um homem mais velho e sem passado (Matheus Natchtergaele, cumprindo seu papel costumeiro de brilho no elenco), que sabe tudo sobre drogas, disfarces e falsificação de documentos. Ou seja, tudo o que a molecada precisava para viver confortavelmente no seu universo paralelo, pelados e sem norte.

Ao fim da história, a vida real revida o ataque concepcionista e tudo volta ao normal. Ou não - o que não faz a menor diferença. E A concepção falha no seu objetivo (se é que ele existe) de suscitar uma discussão sobre os rumos da sociedade contemporânea. Bem de acordo, aliás, com um dos preceitos que rege seus personagens: “tudo o que foi falado até agora deve ser esquecido”. Ah, tá.

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